sexta-feira, 3 de novembro de 2023

DO TEMPERAMENTO AO transtorno de humor (Bipolaridade)

Esse é o capítulo 4 do livro: "Temperamento Forte e Bipolaridade (Diogo Lara)"

MUITAS PESSOAS COM TRAÇOS HIPERTÍMICOS FORTES NUNCA APRESENTAM qualquer tipo de transtorno de humor, seja depressão ou mania. Ao contrário, são pessoas bem dispostas, positivas, produtivas, aproveitam a vida e estão muito bem, obrigado. O importante é registrar que pessoas assim, ao passarem por um episódio depressivo, muitas vezes expresso em apatia, excesso de sono e irritabilidade, deveriam receber tratamento considerando o espectro bipolar, e não que tivessem uma depressão unipolar, o que muda o tipo de remédio e as precauções a serem tomadas. Pelo menos do nível mais leve até o nível bipolar tipo II, parece existir certa correlação entre a presença de sintomas de humor e o grau de vantagens da linha bipolar, ou seja, as pessoas mais bem-sucedidas e brilhantes desse espectro carregam uma carga “compensatória”. Já os bipolares do tipo I precisam superar a intensidade dos sintomas para poder manifestar essas vantagens de maneira mais consistente. Uma comparação possível é com carros. Os mais simples não têm tanto conforto ou opções, mas são confiáveis e de fácil manutenção e nunca oferecerão os riscos das altas velocidades. Os modelos mais sofisticados e de ponta enchem os olhos, são rápidos, ágeis e confortáveis, mas um eventual problema pode ser mais difícil de resolver e a um preço mais alto. No extremo, os carros de corrida são os mais rápidos, andam no limite da velocidade, mas são sensíveis e vulneráveis, quebrando mais facilmente.

 Os tipos de temperamento são importantes para entender os diferentes tipos de transtornos de humor:

 ► Hipertímico: quando desenvolve um transtorno de humor, tende a ter mais episódios maníacos ou hipomaníacos, com humor eufórico ou irritável, mas pode ter episódios depressivos e mistos também.

 ► Depressivo: o transtorno de humor resultante é logicamente a depressão unipolar, ou seja, não manifesta períodos de mania ou hipomania e o tratamento com antidepressivos é adequado.

► Ciclotímico: a tendência do transtorno de humor é se expressar na direção da mania ou da depressão, dependendo do caso e do momento. Com o tempo, tende a gerar estados mistos, de humor instável, ansioso e turbulento.

 ► Irritável: quando se desenvolve um transtorno de humor, a irritabilidade chega a extremos de agressividade, com grande mal-estar e desconfiança, até o extremo da paranoia. O pavio, que já era curto, quase desaparece.

 Como já foi dito, o mundo dos pantímicos, ou do espectro bipolar, está recheado de elementos que podem ser positivos e divertidos: criatividade, energia, pique, ousadia, gozação, originalidade, senso de humor, ironia, liderança, diversão, sensualidade exacerbada, gargalhadas soltas, visual diferente, extravagante ou alternativo, sinceridade extrema, paixão, extroversão, entusiasmo, exageros, desafios, competitividade, conquista, autoconfiança, generosidade desprendida, busca de novidades e de prazer, afetividade, iniciativa, autenticidade, carisma, charme, espontaneidade, noites viradas, tagarelice, fala alta, gosto pelo que há de melhor. No entanto, essas características passam a se expressar de maneira negativa quando surge o transtorno de humor na direção do polo da mania. Esses períodos mais críticos podem durar poucos dias e, por haver uma recuperação espontânea, pode-se não dar muito valor a eles. Com o passar dos anos, é comum o humor ficar cada vez mais vulnerável e incontrolável, e os episódios de humor alterado podem se tornar mais frequentes, duradouros e graves. Se não for adequadamente tratada, a pessoa sofre repercussões psicológicas mais profundas, porque um humor oscilante afeta muito a autoconfiança e a autoestima — já que o humor resolveu tomar rumo próprio sem dar satisfações. Essa sensação de insegurança é particularmente presente em pessoas com o padrão ciclotímico. É como se fôssemos passageiros de um avião chamado humor. Quando tudo vai bem, o voo ocorre sem turbulências e o piloto automático dá conta do recado sem esforços. Na direção da mania, o avião vai subindo a alturas perigosas que, no extremo, podem chegar à estratosfera. Pode ser eletrizante, mas corre-se o risco de o avião não aguentar ou não conseguir retornar. Na depressão, o avião está em queda livre, o voo baixo consome muito mais energia ou tem que ser mais lento, e o risco é de colapso. Já os estados mistos ou de ciclagem ultrarrápida são voos com grande turbulência ou com um piloto dado a piruetas arriscadas sem nosso consentimento. Infelizmente, assim como não escolhemos o avião, o piloto ou as condições de voo, também não escolhemos o humor e o temperamento que temos. Uma das razões da grande importância de identificar precocemente as alterações do humor é poder ajustar as doses de medicação, conversar com o terapeuta e adotar estratégias eficazes em relação ao ambiente, e assim prevenir novos episódios de alteração plena. Cerca da metade dos pacientes com algum tipo de transtorno de humor bipolar relata vivenciar oscilações bruscas e fugazes, o que pode durar de algumas horas a poucos dias. Esse padrão de altíssima oscilação, com ciclagem ultrarrápida, está associado a algumas características peculiares dentro do espectro da bipolaridade. Nesses pacientes, as alterações de humor, em geral, iniciaram-se antes dos 18 anos. É comum ficarem exaltados e energizados ao tomarem antidepressivos, abusarem de drogas (mais em homens) e sentirem ansiedade (mais em mulheres), que se manifesta nas formas de ataques de pânico, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo, entre outros transtornos, como bulimia. Os estados de alta oscilação de humor e os estados mistos são também os momentos de maior risco de tentativas de suicídio, geralmente de caráter impulsivo, sem prévio planejamento e ruminação. A trajetória do transtorno de humor é variada, mas alguns padrões podem ser identificados. Em pessoas com bipolaridade, a depressão e a mania podem surgir praticamente em qualquer momento da vida, apesar de ser mais comum entre os 15 e 30 anos nos casos mais sérios, podendo se manifestar mais tarde nos casos leves. Alguns apresentam oscilações fortes e bruscas de humor no fim da infância ou no início da adolescência, ou ainda manifestam irritabilidade e agressividade exageradas para essa fase da vida. É importante salientar que a bipolaridade na infância não se manifesta com episódios claros de humor elevado ou deprimido, e sim com humor misto: grande oscilação, irritabilidade, turbulência, distração e condutas desafiadoras e impulsivas. Esses quadros podem ser confundidos com déficit de atenção e hiperatividade. Perceber os primeiros sinais de alteração do humor ajuda a prevenir novos surtos. As versões leves do transtorno de humor bipolar muitas vezes se expressam de maneira negativa e depressiva somente em torno dos 40, 50 anos. Diria que os bipolares do tipo IV, em geral, se deprimem ou ficam carregados no humor depois dos 50, e os outros bipolares leves (II e III) antes ou bem antes, no máximo aos 40 e poucos anos. São pessoas que antes tinham um temperamento hipertímico, com progresso pessoal, visibilidade social, reconhecimento e energia constante e, quando parecia que já tinham tudo o que queriam, começaram a expressar o humor deprimido, irritável ou uma sensação de bateria fraca, que pode se transformar em quadros sérios de transtorno de humor. Não é raro que uma das manifestações dessa alteração de humor seja o aumento do consumo de bebidas alcoólicas, que pode até ser considerado uma forma de autotratamento. O álcool é bastante ruim como “tratamento”, mas acaba produzindo uma momentânea sensação agradável de bom humor, por ter algum efeito que eleva e estabiliza o humor. Infelizmente, quando procura tratamento psiquiátrico, a maioria acaba sendo enquadrada entre os depressivos unipolares e recebe antidepressivos ou é tratada como alcoólatra. Alguns passam vários anos com o humor ruim, com altos e baixos, até que alguém se dá conta de que o tratamento farmacológico deve ser direcionado de maneira diferente, por meio de estabilizadores de humor. Vendo de fora, as pessoas não entendem o que está acontecendo e começam a cobrar uma resposta do humor, que não depende de quem está sofrendo do transtorno. Ao compreenderem que pode haver uma depressão, de fato, mesmo naquela pessoa que antes passava tanta confiança e entusiasmo, atiram a fatídica frase de “apoio”: “Você tem que se ajudar!”. Se o humor está mais turbulento, com atos inconsequentes, o conselho é mais na linha do “se controle!”. Desrespeitar a premissa básica de que quem está deprimido ou com o humor agitado não escolheu ficar assim piora as coisas, porque aumenta a sensação de impotência. O que esse tipo de atitude pode gerar é a vontade de dar uns tabefes em quem insiste no “você tem que se ajudar”. Quem está de fora pode ajudar, com mais sucesso, oferecendo apoio, compreensão e disponibilidade para atenuar os prejuízos do momento. Muitas vezes é um familiar ou amigo que toma a decisão de procurar ajuda especializada, porque quem está doente pode não ter energia suficiente, pode negar a necessidade de tratamento ou estar louco de medo de ir a um psiquiatra ou psicólogo. Frequentemente procura um neurologista, um clínico geral ou um tratamento alternativo, antes ou em vez do especialista adequado. Muitas pessoas com bipolaridade nunca manifestam sintomas claros de humor eufórico, mas têm um padrão de instabilidade ou oscilação de humor, com fases depressivas ou mais impulsivas passageiras. No padrão ciclotímico, às vezes, expressam oscilações de maneira mais aparente de outras formas. Por exemplo, pessoas com propensão à obesidade sofrem o efeito sanfona, vendedores têm períodos bons e ruins de vendas, outros, em geral mulheres, mudam constantemente o visual, com alterações na cor e no corte do cabelo e no estilo de se vestir. Essa instabilidade pode ser reflexo de fases de maior intensidade ou desânimo, que são mais sutis do que períodos de humor depressivo ou eufórico propriamente ditos. Alguns pacientes manifestam a bipolaridade de modo atípico, que não se encaixa nas descrições já feitas. Isso ocorre porque uma das marcas das pessoas do espectro bipolar é a intensidade das reações afetivas, combinadas a pensamentos exagerados que podem se expressar desde cedo pelo seu polo negativo, gerando ansiedade e reações dramáticas. Com frequência, são encaixados em diagnósticos de transtorno de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo ou algum tipo de fobia, inclusive a social, apesar de fazerem parte, na verdade, do espectro bipolar. Também há bipolares que têm história de inibição ou timidez e só mais tarde, em geral na adolescência, passam a se expressar de modo mais expansivo e extrovertido. Todos sabemos o que é ansiedade por experiência própria, como a sensação angustiante de um descompasso entre um ambiente e nós mesmos, e isso varia de pessoa para pessoa. Por exemplo, posso ficar muito ansioso com uma prova e pouco ansioso à espera do resultado de um exame médico, ao passo que com outra pessoa é o contrário. Tenho a impressão de que um tipo de ansiedade mais comum de encontrar em bipolares do que em não bipolares é a sensação de que está faltando alguma coisa, e não sobrando, que está acontecendo menos do que deveria para harmonizar com a velocidade interna. Por isso, acabam usando calmantes (que funcionam como paliativos, no curto prazo) mais do que deveriam, em vez de buscarem um tratamento para trabalhar e corrigir as bases psicológicas e biológicas do problema.

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