sexta-feira, 3 de novembro de 2023

DO TEMPERAMENTO AO transtorno de humor (Bipolaridade)

Esse é o capítulo 4 do livro: "Temperamento Forte e Bipolaridade (Diogo Lara)"

MUITAS PESSOAS COM TRAÇOS HIPERTÍMICOS FORTES NUNCA APRESENTAM qualquer tipo de transtorno de humor, seja depressão ou mania. Ao contrário, são pessoas bem dispostas, positivas, produtivas, aproveitam a vida e estão muito bem, obrigado. O importante é registrar que pessoas assim, ao passarem por um episódio depressivo, muitas vezes expresso em apatia, excesso de sono e irritabilidade, deveriam receber tratamento considerando o espectro bipolar, e não que tivessem uma depressão unipolar, o que muda o tipo de remédio e as precauções a serem tomadas. Pelo menos do nível mais leve até o nível bipolar tipo II, parece existir certa correlação entre a presença de sintomas de humor e o grau de vantagens da linha bipolar, ou seja, as pessoas mais bem-sucedidas e brilhantes desse espectro carregam uma carga “compensatória”. Já os bipolares do tipo I precisam superar a intensidade dos sintomas para poder manifestar essas vantagens de maneira mais consistente. Uma comparação possível é com carros. Os mais simples não têm tanto conforto ou opções, mas são confiáveis e de fácil manutenção e nunca oferecerão os riscos das altas velocidades. Os modelos mais sofisticados e de ponta enchem os olhos, são rápidos, ágeis e confortáveis, mas um eventual problema pode ser mais difícil de resolver e a um preço mais alto. No extremo, os carros de corrida são os mais rápidos, andam no limite da velocidade, mas são sensíveis e vulneráveis, quebrando mais facilmente.

 Os tipos de temperamento são importantes para entender os diferentes tipos de transtornos de humor:

 ► Hipertímico: quando desenvolve um transtorno de humor, tende a ter mais episódios maníacos ou hipomaníacos, com humor eufórico ou irritável, mas pode ter episódios depressivos e mistos também.

 ► Depressivo: o transtorno de humor resultante é logicamente a depressão unipolar, ou seja, não manifesta períodos de mania ou hipomania e o tratamento com antidepressivos é adequado.

► Ciclotímico: a tendência do transtorno de humor é se expressar na direção da mania ou da depressão, dependendo do caso e do momento. Com o tempo, tende a gerar estados mistos, de humor instável, ansioso e turbulento.

 ► Irritável: quando se desenvolve um transtorno de humor, a irritabilidade chega a extremos de agressividade, com grande mal-estar e desconfiança, até o extremo da paranoia. O pavio, que já era curto, quase desaparece.

 Como já foi dito, o mundo dos pantímicos, ou do espectro bipolar, está recheado de elementos que podem ser positivos e divertidos: criatividade, energia, pique, ousadia, gozação, originalidade, senso de humor, ironia, liderança, diversão, sensualidade exacerbada, gargalhadas soltas, visual diferente, extravagante ou alternativo, sinceridade extrema, paixão, extroversão, entusiasmo, exageros, desafios, competitividade, conquista, autoconfiança, generosidade desprendida, busca de novidades e de prazer, afetividade, iniciativa, autenticidade, carisma, charme, espontaneidade, noites viradas, tagarelice, fala alta, gosto pelo que há de melhor. No entanto, essas características passam a se expressar de maneira negativa quando surge o transtorno de humor na direção do polo da mania. Esses períodos mais críticos podem durar poucos dias e, por haver uma recuperação espontânea, pode-se não dar muito valor a eles. Com o passar dos anos, é comum o humor ficar cada vez mais vulnerável e incontrolável, e os episódios de humor alterado podem se tornar mais frequentes, duradouros e graves. Se não for adequadamente tratada, a pessoa sofre repercussões psicológicas mais profundas, porque um humor oscilante afeta muito a autoconfiança e a autoestima — já que o humor resolveu tomar rumo próprio sem dar satisfações. Essa sensação de insegurança é particularmente presente em pessoas com o padrão ciclotímico. É como se fôssemos passageiros de um avião chamado humor. Quando tudo vai bem, o voo ocorre sem turbulências e o piloto automático dá conta do recado sem esforços. Na direção da mania, o avião vai subindo a alturas perigosas que, no extremo, podem chegar à estratosfera. Pode ser eletrizante, mas corre-se o risco de o avião não aguentar ou não conseguir retornar. Na depressão, o avião está em queda livre, o voo baixo consome muito mais energia ou tem que ser mais lento, e o risco é de colapso. Já os estados mistos ou de ciclagem ultrarrápida são voos com grande turbulência ou com um piloto dado a piruetas arriscadas sem nosso consentimento. Infelizmente, assim como não escolhemos o avião, o piloto ou as condições de voo, também não escolhemos o humor e o temperamento que temos. Uma das razões da grande importância de identificar precocemente as alterações do humor é poder ajustar as doses de medicação, conversar com o terapeuta e adotar estratégias eficazes em relação ao ambiente, e assim prevenir novos episódios de alteração plena. Cerca da metade dos pacientes com algum tipo de transtorno de humor bipolar relata vivenciar oscilações bruscas e fugazes, o que pode durar de algumas horas a poucos dias. Esse padrão de altíssima oscilação, com ciclagem ultrarrápida, está associado a algumas características peculiares dentro do espectro da bipolaridade. Nesses pacientes, as alterações de humor, em geral, iniciaram-se antes dos 18 anos. É comum ficarem exaltados e energizados ao tomarem antidepressivos, abusarem de drogas (mais em homens) e sentirem ansiedade (mais em mulheres), que se manifesta nas formas de ataques de pânico, fobias, transtorno obsessivo-compulsivo, entre outros transtornos, como bulimia. Os estados de alta oscilação de humor e os estados mistos são também os momentos de maior risco de tentativas de suicídio, geralmente de caráter impulsivo, sem prévio planejamento e ruminação. A trajetória do transtorno de humor é variada, mas alguns padrões podem ser identificados. Em pessoas com bipolaridade, a depressão e a mania podem surgir praticamente em qualquer momento da vida, apesar de ser mais comum entre os 15 e 30 anos nos casos mais sérios, podendo se manifestar mais tarde nos casos leves. Alguns apresentam oscilações fortes e bruscas de humor no fim da infância ou no início da adolescência, ou ainda manifestam irritabilidade e agressividade exageradas para essa fase da vida. É importante salientar que a bipolaridade na infância não se manifesta com episódios claros de humor elevado ou deprimido, e sim com humor misto: grande oscilação, irritabilidade, turbulência, distração e condutas desafiadoras e impulsivas. Esses quadros podem ser confundidos com déficit de atenção e hiperatividade. Perceber os primeiros sinais de alteração do humor ajuda a prevenir novos surtos. As versões leves do transtorno de humor bipolar muitas vezes se expressam de maneira negativa e depressiva somente em torno dos 40, 50 anos. Diria que os bipolares do tipo IV, em geral, se deprimem ou ficam carregados no humor depois dos 50, e os outros bipolares leves (II e III) antes ou bem antes, no máximo aos 40 e poucos anos. São pessoas que antes tinham um temperamento hipertímico, com progresso pessoal, visibilidade social, reconhecimento e energia constante e, quando parecia que já tinham tudo o que queriam, começaram a expressar o humor deprimido, irritável ou uma sensação de bateria fraca, que pode se transformar em quadros sérios de transtorno de humor. Não é raro que uma das manifestações dessa alteração de humor seja o aumento do consumo de bebidas alcoólicas, que pode até ser considerado uma forma de autotratamento. O álcool é bastante ruim como “tratamento”, mas acaba produzindo uma momentânea sensação agradável de bom humor, por ter algum efeito que eleva e estabiliza o humor. Infelizmente, quando procura tratamento psiquiátrico, a maioria acaba sendo enquadrada entre os depressivos unipolares e recebe antidepressivos ou é tratada como alcoólatra. Alguns passam vários anos com o humor ruim, com altos e baixos, até que alguém se dá conta de que o tratamento farmacológico deve ser direcionado de maneira diferente, por meio de estabilizadores de humor. Vendo de fora, as pessoas não entendem o que está acontecendo e começam a cobrar uma resposta do humor, que não depende de quem está sofrendo do transtorno. Ao compreenderem que pode haver uma depressão, de fato, mesmo naquela pessoa que antes passava tanta confiança e entusiasmo, atiram a fatídica frase de “apoio”: “Você tem que se ajudar!”. Se o humor está mais turbulento, com atos inconsequentes, o conselho é mais na linha do “se controle!”. Desrespeitar a premissa básica de que quem está deprimido ou com o humor agitado não escolheu ficar assim piora as coisas, porque aumenta a sensação de impotência. O que esse tipo de atitude pode gerar é a vontade de dar uns tabefes em quem insiste no “você tem que se ajudar”. Quem está de fora pode ajudar, com mais sucesso, oferecendo apoio, compreensão e disponibilidade para atenuar os prejuízos do momento. Muitas vezes é um familiar ou amigo que toma a decisão de procurar ajuda especializada, porque quem está doente pode não ter energia suficiente, pode negar a necessidade de tratamento ou estar louco de medo de ir a um psiquiatra ou psicólogo. Frequentemente procura um neurologista, um clínico geral ou um tratamento alternativo, antes ou em vez do especialista adequado. Muitas pessoas com bipolaridade nunca manifestam sintomas claros de humor eufórico, mas têm um padrão de instabilidade ou oscilação de humor, com fases depressivas ou mais impulsivas passageiras. No padrão ciclotímico, às vezes, expressam oscilações de maneira mais aparente de outras formas. Por exemplo, pessoas com propensão à obesidade sofrem o efeito sanfona, vendedores têm períodos bons e ruins de vendas, outros, em geral mulheres, mudam constantemente o visual, com alterações na cor e no corte do cabelo e no estilo de se vestir. Essa instabilidade pode ser reflexo de fases de maior intensidade ou desânimo, que são mais sutis do que períodos de humor depressivo ou eufórico propriamente ditos. Alguns pacientes manifestam a bipolaridade de modo atípico, que não se encaixa nas descrições já feitas. Isso ocorre porque uma das marcas das pessoas do espectro bipolar é a intensidade das reações afetivas, combinadas a pensamentos exagerados que podem se expressar desde cedo pelo seu polo negativo, gerando ansiedade e reações dramáticas. Com frequência, são encaixados em diagnósticos de transtorno de ansiedade, transtorno obsessivo-compulsivo ou algum tipo de fobia, inclusive a social, apesar de fazerem parte, na verdade, do espectro bipolar. Também há bipolares que têm história de inibição ou timidez e só mais tarde, em geral na adolescência, passam a se expressar de modo mais expansivo e extrovertido. Todos sabemos o que é ansiedade por experiência própria, como a sensação angustiante de um descompasso entre um ambiente e nós mesmos, e isso varia de pessoa para pessoa. Por exemplo, posso ficar muito ansioso com uma prova e pouco ansioso à espera do resultado de um exame médico, ao passo que com outra pessoa é o contrário. Tenho a impressão de que um tipo de ansiedade mais comum de encontrar em bipolares do que em não bipolares é a sensação de que está faltando alguma coisa, e não sobrando, que está acontecendo menos do que deveria para harmonizar com a velocidade interna. Por isso, acabam usando calmantes (que funcionam como paliativos, no curto prazo) mais do que deveriam, em vez de buscarem um tratamento para trabalhar e corrigir as bases psicológicas e biológicas do problema.

Asperger e Narcisismo

Estes são os capítulos 9 e 10 do livro: "Psicopatas: O Espectro do Mal" 

9. O Asperger 

(AS) A Síndrome de Asperger (AS) é um Transtorno de Desenvolvimento do Espectro Autista (ASD). Algumas hipóteses sugerem que a diferença entre Asperger e autismo clássico pode ser tanto de ordem quantitativa quanto qualitativa. Indivíduos com Asperger tendem a ter padrões distintos de déficit social, mas bem menos severos que nas outras formas de autismo. Ainda assim, apresentam grande dificuldade no que diz respeito à reciprocidade social e emocional. Sua abordagem social é significativamente anormal, tem dificuldade para manter uma conversação, disposição reduzida para compartilhar interesses, emoções e afeto, além de dificuldade para iniciar ou responder a interações sociais. Além disso, sua vida social é prejudicada por déficits na comunicação verbal e não verbal, as quais são basicamente deficientes e mal integradas. Sua forma de se comunicar pode ser considerada pedante, monofônica, com entonação de voz exagerada. Isso, adicionado a ecolalia ou frases idiossincráticas, anomalias no contato visual, dificuldade para entender gestos, e falta de expressão facial fazem com que a interação com eles seja um tanto complicada. Normalmente não apresentam problemas significativos na capacidade de aprendizado. Mas na linguagem é possível observar padrões que de certa forma lembram a esquizofrenia. A ambos falta capacidade simbólica e dificuldade para compartilhar conceitos abstratos. Por isso, desenvolver e manter relacionamentos é para eles um grande desafio. A dificuldade para ajustar seu comportamento aos vários contextos sociais, adicionada à falta de interesse nos outros, faz com que seja difícil para eles fazerem amigos. Costumam se fixar excessivamente em alguns interesses e ter comportamentos e movimentos repetitivos. O alinhamento de brinquedos também faz parte do quadro. Sua fixação em interesses altamente restritos, anormal em intensidade e foco, faz com que desenvolvam forte preocupação e apego a objetos não usuais. Uma outra característica importante dos Aspergers é a repetição e a aderência inflexível a rotinas e padrões ritualizados verbais e não-verbais. Seguem rituais ao cumprimentar, gostam de pegar o mesmo caminho e de comer as mesmas comidas todos os dias. Sentem extremo desconforto com pequenas mudanças. Essa dificuldade com transições tem como causa padrões rígidos de pensamento. Costumam ter hiper ou hipo-reatividade a estímulos sensoriais, além de interesses inusitados em aspectos do ambiente. Sua aparente indiferença à dor e à temperatura, sua resposta adversa a sons e texturas específicas, sua fascinação com luzes, movimento, e o cheiro e o toque em excesso de objetos os tornam bastante excêntricos. Há na base desta patologia uma desconexão entre empatia cognitiva (pensamento) e empatia emocional (sentimento). Segundo Simon Baron-Cohen, de Cambridge, a causa estaria no mal funcionamento dos circuitos de empatia do cérebro. Seus mecanismos neurológicos limitados o impedem de empatizar com Neurotípicos (NT). 

Principais características do Autismo (ICD-10)

Relacionamentos num nível inapropriado para a idade, normas sociais e expectativas culturais 

Baixo autoconhecimento, pouca habilidade para sentir remorso, aprender com os erros 

Baixa empatia ou apreciação pelos sentimentos dos outros 

Baixa reciprocidade emocional 

Dependência hostil de relacionamentos estáveis 

Tendência a tratar pessoas como objetos ou mesmo preferi-los 

Esse distúrbio de desenvolvimento foi inicialmente batizado de Psicopatia Autista. Não por acaso, ele costuma ser erroneamente diagnosticado como Psicopatia. Isso se deve ao fato de que, pelo menos na superfície, ambos têm algumas similaridades. Uma maneira simples de diferenciá-los é observando os pontos nos quais são o exato oposto um do outro. Enquanto o Asperger é pouco sociável e extremamente autêntico, o Psicopata costuma ser popular e bastante dissimulado. Mas, principalmente, é preciso reconhecer que apesar de não ser capaz de sentir empatia o Asperger, ao contrário do Psicopata, tem boas intenções. A ausência de empatia, em geral, não o impede de sentir carinho pelo outro. Uma importante diferença entre os Aspergers e as patologias do Cluster B é a ausência de ‘ego’, no sentido popular da palavra. Além disso, parecem ter sólidos princípios éticos e morais, os quais por vezes chegam até a ser um tanto rígidos e inflexíveis demais. Uma análise dos estudos publicados entre 2000 e 2011 sobre comorbidade psiquiátrica nos Aspergers encontrou uma prevalência significativa de Depressão, Bipolaridade, Ansiedade, Distúrbio Obsessivo-Compulsivo, Hiperatividade e Déficit de Atenção. Nesse estudo, entretanto, não foi encontrada qualquer comorbidade envolvendo os Distúrbios de Personalidade do Cluster B. Ou seja, apesar das similaridades, o Asperger não faz definitivamente parte da mesma família de distúrbios. A definição do Espectro Autista (Asperger) no DSM não inclui nem o conceito de esfera de personalidade, nem o de traços de personalidade patológicos. 

10. O Narcisista (NPD) 

O Narcisismo já foi chamado de “a última parada de trem antes do espectro autista” (Susan Heitler, Ph.D., Harvard). De fato, ele guarda uma certa semelhança com o Asperger. Seu senso de identidade com referência excessiva nos outros, tanto para se definir, quanto para regular sua autoestima, distorce sua capacidade de se autoavaliar. O Narcisista se avalia de forma exagerada, ora inflada, ora diminuída, vacilando entre esses dois extremos. Sua regulação emocional, de um modo geral, reflete essas flutuações na autoestima. Estabelece objetivos tendo por base a necessidade de ganhar a aprovação. Seus padrões pessoais são geralmente irrealisticamente altos, para se sentir excepcional, ou baixos demais, por achar que não precisa se provar, o que demonstra um senso de merecimento elevado. Com frequência não tem consciência sobre suas próprias motivações. A dificuldade que tem para sentir empatia faz com que seja incapaz de reconhecer e se identificar com os sentimentos e as necessidades dos outros. Parece excessivamente preocupado com as reações das pessoas, mas isso apenas no que considera relevante para si. Em geral tende a super ou subestimar seu impacto sobre os ambientes e as pessoas. Na intimidade, seus relacionamentos são altamente superficiais. Existem apenas para regular sua frágil autoestima. O compartilhamento de experiências é limitado pelo pouco interesse genuíno que tem pelos outros. Nas relações interpessoais predomina a necessidade de ganho pessoal visto que é, antes de mais nada, um explorador. Está sempre em busca de oportunidades para tirar vantagem e assim conseguir atingir seus fins. Frequentemente sente inveja ou acredita que os outros o invejem. No que tange ao comportamento explorador, o Narcisista parece ser uma versão mais branda do Borderline e do Anti-Social. Poderia também ser definido como um Histriônico menos hostil e mais autoconfiante. Uma das disfunções mais comuns entre altos executivos e políticos, o Narcisista busca o poder a qualquer custo. Normalmente charmoso e sedutor, ele parece confiante, amável e fácil de lidar. Mas se olharmos mais atentamente vamos encontrar um rastro de exploração e de falta de reciprocidade ao longo de sua trajetória de vida e de carreira. Suas decisões tendem a ser impulsivas e ter como foco o auto engrandecimento. Os Narcisistas dividem o mundo entre os que estão a seu favor e os que estão contra, ou seja, vilões. 

Apesar de sua grandiosidade, no fundo é extremamente vulnerável. Sua esfera de personalidade característica é o: 

Antagonismo (falta de empatia) 

Seus principais traços de personalidade patológicos são: 

Grandiosidade 

Busca de atenção 

Esses traços se manifestam no Narcisista na forma de sentimento de merecimento, expectativas não razoáveis de tratamento especial e exigência de cumprimento automático de seus desejos. Estão presentes também egocentrismo e desprezo pelas pessoas. Seus comportamentos e atitudes tendem a ser arrogantes e superiores pois no fundo acredita piamente ser melhor do que os outros. Com um senso grandioso de auto importância, tende a exagerar feitos e talentos. Espera ser reconhecido como superior sem conquistas à altura. Tem fantasias de sucesso, poder, brilhantismo, beleza e amor ideal ilimitados. Acredita piamente que é especial e único e que só pode, portanto, ser compreendido ou se relacionar com pessoas ou instituições especiais ou de status elevado. Seu esforço excessivo para ser admirado, atrair e ser o foco das atenções faz com que seja percebido como alguém que exige admiração excessiva. O NPD é mais frequente entre os homens. 

As Causas da Psicopatia

Este é o capítulo 2 do livro: "Psicopatas: O Espectro do Mal" 

O cérebro do Psicopata parece funcionar como o de um adolescente. Egocêntrico, impulsivo e infantil, tal qual um jovem, ele é incapaz de postergar gratificação. O psiquiatra Robert Hare relata que no início pensava-se que era o desenvolvimento do cérebro, a uma taxa anormalmente baixa, que estaria por trás deste tipo de comportamento. Entretanto, ele argumenta, essa hipótese é inconsistente com o fato de que a Psicopatia pode ser detectada até mesmo em crianças. Sendo assim, ele continua, o modelo da ‘página em branco’, segundo o qual o Psicopata é produto de tratamento inadequado durante a infância teve que ser abandonado. Segundo ele, pais de Psicopatas não têm dificuldade para reconhecer que seus filhos são diferentes das outras crianças. A verdade é que a causa desta patologia, assim como a de todas as outras, é um mistério. Há, entretanto, evidências de que é altamente correlacionada com atividade neuronal anormal em regiões específicas do cérebro, causadas tanto por problemas genéticos quanto por problemas de desenvolvimento no início da vida. 

O MODELO INTERATIVO 

O modelo interativo é hoje o mais aceito para explicar as causas da Psicopatia. Bins & Taborda argumentam que psicopatas teriam uma predisposição genética ou de desenvolvimento que floresceria quando exposta a um ambiente propício. Ou seja, o modelo para explicar as causas da Psicopatia seria basicamente o mesmo adotado para explicar as demais psicopatologias. Nesse cenário, dado os genes ‘corretos’, a dificuldade dos pais para formar vínculo com o recém-nascido poderia levar ao surgimento de alterações neuronais, que mais tarde seriam associadas a distúrbios, incluindo a Psicopatia. A ‘teoria do vínculo’ mostra que, de fato, há uma correlação entre negligência e abuso e depressão, uso de drogas, violência, crime e suicídio. 

O FATOR AMBIENTAL

Sabe-se hoje que influências ambientais, em especial a relação entre pais e bebê nos primeiros 1.000 dias de vida a partir da concepção, são tão importantes quanto a herança genética. Segundo Kiehl & Hoffman, até 2011 não havia estudos demonstrando a correlação entre fatores ambientais e os casos mais graves de Psicopatia.  Em estudo apresentado por Hare em 1990 não foi detectada qualquer diferença entre famílias de prisioneiros Psicopatas e não-Psicopatas. Contudo, sabe-se que a dificuldade que pais Psicopatas sentem para criar vínculo com seus bebês poderia aumentar ainda mais as chances de seus filhos se tornarem Psicopatas. Pais não-Psicopatas, por outro lado, poderiam sentir dificuldade semelhante ao tentar se conectar ou formar vínculo com um bebê Psicopata. Isso demonstra o quanto é difícil determinar até que ponto são os genes ou o ambiente os principais responsáveis pelo surgimento desta patologia. 

O FATOR GENÉTICO

O que se sabe ao certo é que fatores genéticos podem dar ao indivíduo uma certa desvantagem quanto à capacidade de socialização e formação de consciência. Mas eles por si só não são capazes de determinar que tipo de Psicopata o indivíduo se tornará. É o ambiente que irá definir se ele será um Psicopata ‘anti-social’, criminoso, que infringe as leis, ou um Psicopata ‘pró-social’, que evita o crime e consegue interagir normalmente na sociedade. É importante notar que os termos ‘anti-social’ e ‘pró-social’ não têm qualquer relação com ser ou não sociável. Muito pelo contrário. A sociabilidade, é justamente um dos traços de personalidade mais marcantes dos Psicopatas ‘anti-sociais’. 

OS DISTÚRBIOS DE PERSONALIDADE 

A mais recente literatura sobre psicopatia a divide em Psicopatia Primária e Secundária, cada qual com etiologia e traços de personalidade distintos. Com relação à personalidade, elas divergem em especial no que diz respeito à sensibilidade à recompensa e à punição, ao equilíbrio emocional, à impulsividade e à hostilidade. Nesse estudo, Yildirim & Derksen mostram ainda que há forte correlação entre a Psicopatia e os distúrbios de personalidade conhecidos como ‘Cluster B’. De fato, segundo a psicanalista Sue Gerhardt, dado os genes ‘corretos’, as personalidades resultantes de maus-tratos nos primeiros 1.000 dias de vida apresentarão provavelmente traços de um desses quatro distúrbios. A causa da Psicopatia Primária estaria fortemente relacionada a déficit emocional do tipo encontrado nos distúrbios de personalidade Narcisista (NPD) e Histriônico (HPD). Já a da Psicopatia Secundária estaria ligada à instabilidade emocional tipicamente encontrada nos distúrbios de personalidade Borderline (BPD) e Anti-Social (ASPD). 

HEREDITARIEDADE E COMORBIDADE 

Em pesquisa envolvendo mais de 1.300 pares de gêmeos noruegueses estimou-se a taxa de hereditariedade para os distúrbios do Cluster B como sendo: Narcisistas (24%), Histriônicos (31%), Borderlines (35%) e Anti-Sociais (38%). Além disso, o estudo também revelou um alto índice de comorbidade entre eles. Ao final, os pesquisadores concluíram que estas comorbidades podem ser atribuídas tanto a fatores genéticos quanto ambientais. Ainda assim, o alto índice de hereditariedade reforça, de certa forma, a hipótese do fator genético como causa. 

OS SISTEMAS NEURO-HORMONAIS

Segundo Yildirim & Derksen, quanto à etiologia, Psicopatas diferem principalmente na contribuição genética, no circuito fronto-límbico, no funcionamento do sistema serotonérgico e dos hormônios testosterona e cortisol. Sue Gerhardt acreditava que, quanto mais cedo o bebê fosse exposto a um ambiente tóxico – seja por envolver abuso, negligência, fumo ou stress – mais severo seria o distúrbio. Isso nos sugere a existência de um espectro.  Se fatores ambientais adversos incidirem sobre um menino no útero ou no seu primeiro ano de vida, as chances de ele manifestar traços Anti-Sociais (ASPD) são bem maiores. Se for uma menina a ser exposta a trauma severo no primeiro ano, o distúrbio de personalidade que ela desenvolverá será provavelmente o Borderline (BPD). Nesse estudo concluiu-se também que Anti-Sociais (ASPD) e Borderlines (ASPD) estão mais proximamente relacionados entre si que com os outros dois distúrbios. Uma menina de mais ou menos dois anos submetida a maus-tratos poderia desenvolver traços Histriônicos (HPD), enquanto um menino nessa mesma faixa etária tenderia a se tornar um Narcisista (NPD) quando adulto. 

O CIRCUITO DA EMPATIA 

O psicólogo Baron-Cohen de Cambridge em seu trabalho sobre ‘cegueira mental’ – incapacidade de entender o estado mental de si-próprio e dos outros, também conhecida como Teoria da Mente (TOM) – estima que há vários níveis de empatia. Segundo ele, em um dos extremos do espectro estariam os Psicopatas, indivíduos com zero grau de empatia, incapazes de perceber o impacto que causam nos outros ou mesmo antecipar seus sentimentos e reações. Entretanto, pesquisas recentes mostram que o Psicopata não é totalmente desprovido de empatia. Em 2013, psicólogos do Social Brain Lab de Amsterdam descobriram que eles são sim capazes de ter este sentimento. A diferença é que eles conseguem, a seu critério, ligá-lo ou desligá-lo. Quando lhes foi solicitado que reconhecessem as emoções de outras pessoas eles foram capazes de ativá-la. Isso sugere um funcionamento anormal, mas não uma total impossibilidade de funcionamento dos circuitos neurais associados à empatia.  Isso explica por que é relativamente mais fácil para eles causarem danos às pessoas. E, de certa forma, explica também por que, apesar de aparentemente insensíveis aos sentimentos dos outros, conseguem ainda assim ser sedutores e socialmente astutos. Para entender como esses fatores se traduzem em disfunções a nível físico, vamos analisar no próximo capítulo as áreas do cérebro que estão diretamente envolvidas ou são de alguma forma afetadas por esse distúrbio. 

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

SIMBIOSE E NARCISISMO

Capítulo do livro: "Filicídio - Considerações sobre o narcisismo"  

No âmbito da mente, simbiose é uma vivência, meramente emocional, de dois seres em um, como uma das expressões do narcisismo patológico. É um estado que merece estudo cuidadoso, pois de sua compreensão deriva o êxito no tratamento de importantes doenças mentais.

É óbvio que a simbiose deriva da ligação mãe-bebê, uma ligação física e emocional perfeita durante a vida intrauterina e claramente evidenciada na existência concreta do cordão umbilical.

Como a denominação sugere, a simbiose comporta, ao mesmo tempo, a fixação de um filho num estado muito primitivo do seu desenvolvimento emocional concomitante ao comportamento de sua mãe, durante, e, sobretudo, após o processo de gestação, concretizando um narcisismo patológico próprio de pessoas de personalidade psicótica, que podem ou não apresentar uma psicose. Nem todo narcísico-patológico, porém, expressa seu narcisismo através da simbiose. Alguns conseguem superar o problema; outros o contém, pelo menos no terreno do "mental".

Por todos os conhecimentos que se tem até hoje, mãe e bebê, durante a gravidez, apesar de serem duas, formam uma só pessoa. Logo de início, digamos, no primeiro mês, a mãe, quando normal, ainda não percebe a existência do filho no ventre, embora possa imaginar como está nessa fase e como será ao nascer. Com o passar dos meses, porém, não só imagina, como sente o filho dentro de si, e passa a viver com ele. Acostuma-se com a vida a dois de tal modo que funciona e age como se ela e o bebê fossem uma só pessoa, até a hora do parto, momento da separação, em que fica bem claro que sempre existiram, desde o começo, duas pessoas distintas.

O parto é um momento muito importante e decisivo, tanto para a mãe quanto para o filho. Podem surgir crises de depressão na mulher normal e crises de psicose nas personalidades psicóticas (narcísico-patológicas) para as quais o registro da perda de uma parte de si mesmas é mais acentuado que o ganho de um filho. Essa ruptura psicótica - assim sentida pela mãe - acarreta sempre uma alteração qualquer, em grans diversos, na relação profundamente simbiótica, física e mentalmente, entre mãe e filho.

A mãe que não tenha ultrapassado sua fase de narcisismo patológico não consegue perceber nem efetivar o desligamento concreto do filho que nasce. Continua agindo como se ainda o carregasse no ventre, como se ambos fossem uma só e única pessoa. Muitas mães não tem um ego suficientemente forte para desenvolver uma crise psicótica, nem mesmo para pequenas crises subclínicas que, em geral, passam despercebidas, quanto mais para sofrer uma verdadeira crise de psicose puerperal, em que sentiria, de maneira aguda e concreta, o desligamento do filho.

Creio que a manutenção emocional da situação simbiótica depende muito do grau de capacidade de sofrer separações que a parturiente apresenta por ocasião do parto. Essa capacidade se manifesta em pequenas crises psicóticas, tais como excitação e dificuldade de conciliar o sono ou crises de choro aparentemente sem motivo, durante alguns dias após o parto. Arrisco-me a dizer que é nessas e por essas pequenas crises de mania e depressão que se processa realmente a efetivação da ruptura, já que a mãe está com capacidade de sentir e de sofrer o que de fato é uma perda, não só de uma parte de si, como de um estado físico e mental. Demonstra estar apta a reorganizar novamente sua vida como pessoa independente.

São muito variadas as manifestações psicóticas pós-parto. Não creio ser necessário alinhá-las todas. O que desejo deixar bem claro é que essas crises revelam uma situação muito favorável ao recém-nascido, propiciando-lhe ótimas condições de desenvolvimento emocional, na certeza inconsciente de que a mãe rompeu efetivamente a situação simbiótica, liberando-o, também, para uma futura independência total.

A mãe que não consegue romper mentalmente a ligação simbiótica na hora do parto manterá o filho sempre em sua dependência, enquanto ela mesma vive na dependência desta dependência. Isso explica a dificuldade de um eventual futuro tratamento de ambos.

Pode acontecer também que, num caso de simbiose emocional, a mãe engravide novamente. Desfaz-se o par simbiótico. A mãe fica livre, inteira, disponível, para um segundo estado simbiótico. O filho, então, passa bruscamente à sensação de estar mutilado, de ser apenas uma metade, como de fato é. Fica doente, ou se agravam seus sintomas: "Ficou doente quando a mãe engravidou do segundo filho". De fato é bastante critica a quebra de uma situação em que, na falta de objetos internos próprios, a pessoa se serve de um prolongamento, da mãe, objeto externo, concreto. A retirada desse apoio atua como uma decretação de morte pela incapacidade que trouxe, ao nascer, de reorganizar sua vida mental. Assim é que se produzem famílias inteiras que são psicóticas.

A compreensão da continuidade do estado simbiótico mãe-bebê é de fundamental importância para o terapeuta. Se conseguir detectar a origem simbiótica de uma doença mental, compreenderá que, apesar de independente como pessoa, com todos os requisitos adequados - órgãos, aparelhos, sistemas orgânicos para realizar uma vida própria, um paciente pode ainda não ter nascido, não ser ninguém para a mãe narcísico- patológica. Quanto à mãe, ela não tem espaço interno nem para os próprios objetos parentais, quanto mais para objetivar a imagem do filho. Este sempre será uma parte concreta do corpo dela. O que existe, na verdade, é apenas ela e suas necessidades vitais. É como se fossem dois corpos com uma só cabeça, a sua, numa figuração concretizada. O filho é apenas um prolongamento corporal e "mental" dela. Tenho sempre em mente a mãe de um adolescente internado na Pensão Margaridas por apresentar uma crise de psicose aguda. A crise representou uma melhora em seu estado simbiótico, pois enlouquecer requer certo grau de saúde mental. A mãe então ficou perdida, confusa com o ato individual do filho, mas mesmo assim o internou, temendo a possibilidade de uma agressão física. Seria um pseudopode se revoltando contra o resto do corpo, cena inconcebível para uma pessoa narcísico-simbiótica?

"Como é que um pedaço de mim quer tornar-se independente de mim mesma?", era a pergunta inconsciente dessa mãe, ela mesma nada podendo fazer, por vivenciar também a situação de interdependência do filho. Esse meu paciente da Pensão Margaridas se recuperou em uma semana (masoquismo?) e a mãe o "requisitou" de volta para casa imediatamente, dizendo: "Não me interessa se ele está bem ou mal, se precisa de tratamento ou não, o que me interessa é que eu preciso dele, e isso basta!"

Acredito que o que aconteceu com os dois, ou com o um que representavam, se levarmos em conta a profunda situação simbiótica, foi que o filho, entrando numa crise psicótica, revelou ter saúde, vida, numa tentativa, ainda que tardia, de independência - pelo menos física. Não quer dizer que tenha conseguido se desligar mentalmente, tanto que passou para outro tipo de crise, em que não consegue usar sua saúde. Explico melhor: a crise psicótica desse adolescente foi uma crise de saúde, pois era uma tentativa de se separar da mãe, mas logo a seguir se tomou uma crise de doença, pois não sabia o que fazer com sua independência, uma vez que não estava aparelhado "mentalmente" para ser independente. Usou o que tinha de independência, que é saúde, para agredir a mãe, o que é uma manifestação de doença. E foi internado como "louco", pois em determinado momento não pôde se conter todo dentro de si. Enquanto vivia simbioticamente com a mãe, sendo apenas "uma metade", tudo ia bem. Mas quando, de repente, ao tentar agir com independência, descobriu inconscientemente que vivia como uma "metade" e conseguiu ter uma crise psicótica, considero está uma crise de saúde. A também mãe passou a sentir que era apenas uma "metade" e suportou mal o fato, pois o rompimento do trato inconsciente foi brusco demais, sem uma necessária preparação. Se essa mãe fosse capaz de fazer (produzir) identificações projetivas, também poderia ter uma crise psicótica, desfazendo a simbiose e permitindo ao filho ser ele mesmo.

A simbiose impede, ou não propicia a formação de identificações projetivas, já que cada vez que um dos componentes do par simbiótico tenta fazer uma identificação projetiva, poderá estar projetando uma parte de si mesmo no outro, ao contrário da situação em que o bebê faz identificações projetivas na mãe, vivida como alguém de fora, fisicamente desligada dele.

No caso do par simbiótico, o bebê vivencia a mãe e vice-versa, ambos como sendo um prolongamento físico um do outro. Cada um vive um "não- ser" desconfortável internamente, mas que não incomoda tanto quanto uma crise psicótica, que é a tentativa de desfazer o laço simbiótico e narcísico patológico. Se, por um lado, a situação simbiótica incomoda pouco, por outro não oferece as saídas que uma crise psicótica pode propiciar. Estou cada vez mais certa de que não existe um paciente simbiótico, mas um par simbiótico narcísico patológico, mãe-filho que, em termos de tratamento, deve ser considerado como um conjunto, como uma só pessoa. Para a individualização de cada uma das pessoas, mãe e filho, essa pessoa primitiva "mãe-bebê" tem que morrer (psicologicamente, claro). Nem todos os componentes das duplas suportam essa "morte", necessária para que, nascendo efetivamente, se tornem pessoas independentes. Se a mãe não tiver um acompanhamento terapêutico concomitante, o tratamento do filho estará fadado ao insucesso.

Referi-me linhas atrás a um possível comportamento masoquista do adolescente em questão. É que alguém menos predisposto à aniquilação, ao "não-ser", teria levado mais tempo para se curar da crise psicótica, proporcionando à mãe, sua outra metade, um tempo maior, necessário para ela também se refazer da quebra da situação simbiótica. Assim, essa mãe poderia até continuar a ser muito doente, psicótica, mas teria rompido a vivência doentia de ser "metade" com aparência de inteira. Um tempo mais longo, propiciado pela crise do adolescente, lhe teria dado condições de suportar o "nascimento" do filho, mesmo que tardio, podendo ela também. afinal, reaver sua independência como pessoa. Melhorando em pouco tempo, digo que meu paciente piorou, pois achou-se imediatamente pronto a restabelecer a ligação simbiótica que, se para o leigo passa despercebida, é extremamente destrutiva, bem o sabemos; e para ambos, mãe e filho. Portanto, observando os fatos, cheguei à conclusão de que a breve cura da crise psicótica de meu paciente foi uma expressão de masoquismo - suicídio seria a palavra melhor para designar sua volta ao "não-ser".

Nesses casos de vivência simbiótica é preciso também compreender o comportamento da mãe que procura interromper o tratamento do filho hospitalizado. Separada dele, vê-se de repente e bruscamente à mercê de seus impulsos internos autodestrutivos. Faltando-lhe uma metade, precisa "recuperar" a outra parte de si mesma, o filho. De outro lado, em sua incapacidade de internalização de imagens, o fato de não ver o filho, de não tê-lo por perto, a leva à desagradável sensação de que ele não existe mais; passa, então, a criar fantasias muito sérias a respeito de sua morte. Também é muito violenta a ameaça de morte que sente em relação a si mesma.

Compreende-se então que não é por maldade que a mãe retira o filho do tratamento hospitalar; trata-se tão somente de um problema de narcisismo patológico e de simbiose, mais de simbiose que de narcisismo. Numa relação em que a simbiose tivesse se desfeito, mesmo sendo mãe e filho pessoas narcísico-patológicas, seria muito possível que a mãe não interferisse na continuação do tratamento do paciente.

De tudo que acabamos de expor, infere-se o quanto é importante o atendimento da família para o êxito do tratamento do paciente. A observação do comportamento dos pais e, sobretudo, da mãe de pacientes psicóticos. levou-me a entender a formação e estruturação de uma família psicótica. Eu hoje acrescentaria que na base da situação simbiótica está o filicídio: um filho que nem nasce como pessoa, permanece sendo apenas um apêndice de uma mãe extremamente doente.



ESQUIZOFRENIA E OUTROS TRANSTORNOS PSICÓTICOS

Esse é o capítulo 5 do livro: "Psiquiatria – O essencial 

Rafael T. de Sousa 

Maurício Henriques Serpa 

INTRODUÇÃO E HISTÓRIA 

Apesar de já em escritos antigos haver relatos de sintomas observados hoje nos pacientes acometidos, a esquizofrenia só começou a ganhar status de condição médica no f im do século XIX (Berrios et al, 2003). Em 1896, o psiquiatra alemão Emil Kraepelin, que é considerado o “pai” da nosologia psiquiátrica, descreveu pela primeira vez o quadro clínico do transtorno que observava em pacientes jovens com sintomas psicóticos (por exemplo, alucinações e delírios) e deterioração cognitiva. Para enfatizar as perdas cognitivas, Kraepelin cunhou o termo demência precoce (Berrios et al. 2003). Porém, é apenas em 1908, que o suíço Eugen Bleuler denomina o transtorno como esquizofrenia (do grego “mente cindida”), termo que utilizamos até hoje (Berrios et al., 2003). Atualmente, a psiquiatria lança mão de manuais diagnósticos na tentativa de homogeneizar sua prática e pesquisa. A Classificação Internacional de Doenças – 10ª edição (CID-10) e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – 5ª edição (DSM-V) trazem critérios operacionais semelhantes para o diagnóstico da esquizofrenia e são hoje uma referência para a prática clínica e para a pesquisa (vide Quadro Clínico e Diagnóstico). 

EPIDEMIOLOGIA 

A prevalência de esquizofrenia é em torno de 1%, havendo algumas variações pequenas na prevalência entre diferentes países (Sadock & Kaplan, 2006; McGrath et al., 2008). Devido às diferentes taxas de prevalência encontradas na população geral, muitas pesquisas sobre a associação de fatores sociodemográficos com a incidência de esquizofrenia foram realizadas. Com relação à etnia, os resultados têm sido bastante inconsistentes em relacionar um determinado grupo étnico a um risco maior de desenvolver a esquizofrenia; no entanto, as minorias étnicas, independente de quais 72 sejam, tem um risco aumentado. Ser imigrante ou filho de imigrante aumenta em 3 vezes o risco de desenvolver esquizofrenia (Cantor-Graae & Selten, 2005). Outro fator importante é o ambiente urbano; sabe-se que o convívio em grandes cidades pode ser responsável por até 30% do risco de se desenvolver esquizofrenia, o que pode ser explicado em parte pela adversidade social (Krabebendam & van Os, 2005). Com relação à idade de início, observou-se que o pico de incidência se dá em torno de 20-25 anos (Kessler et al., 2007; Jones et al., 1994; Lauronen et al., 2007). Quando os estudos analisaram o início da doença separando-se os sexos, observou-se que as mulheres desenvolvem a doença em média cinco anos depois que os homens (Häfner & an der Heiden, 2003) e que elas apresentam ainda um segundo pico de incidência dos 45 aos 49 anos (Häfner et al, 1998). Por último, pessoas separadas ou divorciadas apresentam maiores taxas de prevalência da doença (2,9%); as solteiras estariam em segundo lugar (2,1%), seguidas das casadas (1,0%) e das viúvas (0,7%) (Keith et al., 1991). 

 ETIOLOGIA 

A vulnerabilidade à esquizofrenia depende de fatores diversos. Um deles é a predisposição genética. Há uma incidência maior de esquizofrenia e outras psicoses em familiares de indivíduos com esquizofrenia (Kendler et al., 1994). A chance de se ter esquizofrenia quando um irmão gêmeo monozigótico é acometido é em torno de 45%; no caso de irmãos gêmeos dizigóticos, a chance é de 10% (Cannon et al., 1998). No entanto, cerca de 85% dos pacientes não tem parentes de primeiro grau acometidos pela doença (Sullivan et al, 2003). Isso acontece porque a herança genética na esquizofrenia não se deve a um só gene, mas sim a vários genes de pequeno efeito que aumentam a chance de um indivíduo desenvolver esquizofrenia (Pickard, 2011). A expressão de um gene pode ser alterada por influências ambientais. Tais alterações epigenéticas, também tem seu papel na vulnerabilidade para esquizofrenia: por exemplo, uma meta-análise de 2007 sugere que a idade paterna acima dos 40 anos esteja associada com esquizofrenia (Wohl & Gorwood, 2007). Problemas perinatais também mostraram associação com a esquizofrenia. Estudos indicam que complicações na gestação, desenvolvimento fetal anormal e complicações no parto (como hipóxia) são fatores de risco para esquizofrenia (Cannon et al., 2002). Da mesma forma, estresse grave na gestação (como a morte de um parente) (Khashan et al., 2008), infecção viral da gestante (Brown, 2006) e desnutrição materna (Brown & Susser, 2008) estão associados ao transtorno. O uso de canábis (maconha) está associado ao desencadeamento de sintomas psicóticos em indivíduos normais (Morrison et al., 2009) e à piora dos sintomas em pacientes com esquizofrenia (D’Souza et al., 2005). Uma revisão feita por Moore et al. (2007) descreveu que quanto maior o uso de canábis, maior foi a associação encontrada com o transtorno. Estimativas do impacto do uso de canábis na Inglaterra e no País de Gales apontam que mais de 25% dos novos casos de esquizofrenia podem ser devidos ao uso da droga (Hickman et al., 2007).  

FISIOPATOLOGIA 

Ainda não se sabe exatamente o que leva uma pessoa a apresentar os sintomas clínicos da esquizofrenia. Nos últimos anos houve um acúmulo de importantes descobertas pela neurociência que levaram ao modelo atual da esquizofrenia como uma doença causada por alterações do neurodesenvolvimento associado a processos neurodegenerativos após o início da psicose (Keshavan et al, 2006; Jarskog & Gilmore, 2006). O paciente apresentaria alterações encefálicas precoces durante a vida, antes de apresentar o transtorno. Com o passar do tempo, devido a fatores desencadeantes ambientais ou geneticamente determinados, haveria uma progressão das alterações cerebrais (morfológicas e funcionais), culminando com a apresentação dos sintomas. Dentro deste modelo, em relação à sinalização neuronal, sabe-se hoje que o principal mecanismo envolvido na fisiopatologia da esquizofrenia é o desequilíbrio do neurotransmissor dopamina (Laruelle, 1998; Laruelle et al., 2007). Existem diversos achados de estudos moleculares e de neuroimagem que corroboram tal modelo. Estudos de ressonância magnética do sistema nervoso central (SNC) demonstraram reduções volumétricas em regiões como córtex frontal, amígdala, cíngulo anterior, hipocampo e giro parahipocampal, tálamo, córtex insular, regiões mesiais do lobo temporal e giro temporal superior (Wright et al, 2000; van Haren et al, 2007; Glahn et al, 2008; Ellison-Wright et al, 2008), alargamento de espaços ventriculares, diminuição de volume cerebral total e redução do volume de substância cinzenta (Vita et al., 2006) e alterações focais de substância branca (Ellison-Wright & Bullmore, 2009). As alterações estruturais, de forma geral, estão presentes antes do início da psicose e evoluem com a doença. Além das evidências levantadas pela neuroimagem, estudos genéticos também corroboram a presença de alterações no neurodesenvolvimento. Sabe-se que genes ligados à formação e maturação cerebrais (por exemplo, genes que determinam migração e proliferação celulares, mielinização, desenvolvimento axonal, sinaptogênese e poda neuronal) estão associados à esquizofrenia (Fatemi & Folsom, 2009). Enquanto o neurodesenvolvimento alterado explica as alterações antes da psicose, a redução de massa cinzenta após a instalação da psicose pode corresponder à indução de apoptose sináptica (Jarskog et al., 2005) associada a mediadores inflamatórios (Pickard, 2011) e à disfunção mitocondrial (Clay et al., 2011) relacionados à esquizofrenia. Outras evidências provêm de estudos de neuroimagem funcional, que estudam a atividade neuronal através do consumo de glicose e concentração de oxigênio do cérebro. Tais estudos demonstraram hipo ou hiperatividade anormais em diferentes regiões cerebrais de pacientes com esquizofrenia (Fusar-Poli et al., 2007). Há ainda achados de alterações funcionais no eletrencefalograma nos pacientes com o transtorno (Bramon et al., 2005; Patterson et al., 2008). 

QUADRO CLÍNICO E DIAGNÓSTICO

O quadro clínico da esquizofrenia é bastante variado e não apresenta sintomas ou sinais patognomônicos. A apresentação clínica pode ser dividida nas seguintes 74 dimensões: 1. Sintomas positivos: delírios e alucinações. 2. Sintomas negativos: embotamento afetivo, diminuição da motivação, isolamento social, empobrecimento do pensamento. 3. Sintomas cognitivos: déficits de memória, de atenção e de funções executivas. 4. Sintomas de humor: sintomas depressivos (mais comumente) ou sintomas maníacos e ansiedade. 5) Sintomas de desorganização: desorganização do pensamento e comportamento, afeto inapropriado. A definição de critérios diagnósticos do DSM-V (Tabela 1A) é a mais utilizada atualmente na prática clínica. Segundo a mesma, para se estabelecer o diagnóstico Tabela 1. é necessário que pelo período de um mês o indivíduo tenha dois dos sintomas característicos (delírios, alucinações, desorganização de discurso, desorganização de comportamento ou sintomas negativos). Além disso, o paciente dever ter no mínimo seis meses de sintomas ainda que atenuados (ou apenas sintomas negativos) e declínio no nível de seu funcionamento (dificuldades ocupacionais, sociais e acadêmicas). Deve se excluir que os sintomas se devam a alguma condição médica, uso de substâncias e transtornos do humor com sintomas psicóticos. Como descrito acima, o diagnóstico da esquizofrenia e transtornos correlatos é clínico. No entanto, devem-se descartar outras doenças não psiquiátricas que levam à apresentação de sintomas psicóticos, e por isso, além da anamnese e exames físico, neurológico e psíquico cuidadosos, estão indicados fazer-se exames complementares, especialmente quando é o primeiro surto psicótico e se este primeiro surto se dá depois dos 40 anos de idade. Exames indicados numa primeira abordagem são: hemograma completo, ureia e creatinina, enzimas hepáticas, TSH e T4 livre, sorologia para sífilis e HIV, VHS, glicemia de jejum, sódio e potássio, urina tipo I, toxicológico. Exames de neuroimagem (preferencialmente ressonância magnética), eletroencefalograma e líquor também estão indicados, especialmente se o quadro é catatônico ou se há alterações neurológicas no exame físico (Sahaya & Lardizabal, 2010). São muitos os quadros orgânicos que podem cursar com sintomas psicóticos: infecções do SNC, tumores do SNC, trauma crânio-encefálico, epilepsia, demências, delirium, lúpus eritematoso sistêmico, hipo e hipertireoidismo, distúrbios hidroeletrolíticos, insuficiência renal e hepática, intoxicações e uso de medicamentos (corticoides, estimulantes, anticolinérgicos, catecolaminérgicos). Entre estes, o delirium é frequentemente o motivo de interconsultas psiquiátricas. Apresentaremos a seguir a classificação em subtipos da penúltima versão do DSM, o DSM-IV-TR. Esta divisão em subtipos ainda é utilizada por muitos psiquiatras, embora não esteja mais em vigor devido à sua estabilidade diagnóstica, confiabilidade e validade baixas (Tandon et al., 2013). O DSM-IV-TR classificava a esquizofrenia em cinco subtipos segundo o predomínio de alguns sintomas: 1. Paranóide: predomínio de delírios e alucinações; 2. Desorganizada (ou hebefrênica): predomínio de desorganização do comportamento, pensamento e afeto; 3. Catatônica: predomínio de sintomas catatônicos como catalepsia, f lexibilidade cérea, maneirismos, mutismo, ecopraxia, ecolalia, estereotipias, negativismo; 4. Indiferenciada: sem predominância de um dos grupos de sintomas; e 5. Residual: predomínio de sintomas deficitários. Outro subtipo reconhecido apenas pela CID-10, classificação internacional em vigor, é a esquizofrenia simples. Neste, o paciente desenvolve apenas sintomas negativos e cognitivos, sem a presença inicial de sintomas positivos francamente psicóticos. 

TRANSTORNOS CORRELATOS 

Há importantes diagnósticos diferenciais psiquiátricos dentro dos transtornos psicóticos. Em todos os transtornos, sempre que houver sintomas psicóticos é recomendado o uso de medicações antipsicóticas, associadas ou não com outros tipos de psicofármacos, no tratamento. O transtorno psicótico breve, descrito no DSM-V, é definido pela presença de sintomas psicóticos (delírios, alucinações, fala desorganizada, comportamento catatônico ou desorganizado) por um período de 1 dia a 1 mês, sem gerar sintomas residuais após sua remissão. A CID-10 descreve uma entidade muito semelhante a esta, o transtorno psicótico agudo transitório, no qual há um início e desenvolvimento completo do quadro de sintomas psicóticos (delírios, alucinações, fala desorganizada) em até duas semanas, havendo porém recuperação total em até três meses. Outro quadro descrito no DSM-V é o transtorno esquizofreniforme. Neste, o paciente preenche o critério A para esquizofrenia (sintomas característicos) e o curso do transtorno tem duração maior que um mês e menor que seis meses. No transtorno delirante persistente, de acordo com o DSM-V, ocorrem ideias delirantes, com duração de ao menos um mês, não se cumprindo o critério A para esquizofrenia. No entanto, pode haver alucinações táteis e olfatórias relacionadas ao tema do delírio. O transtorno esquizoafetivo, diagnóstico bastante controverso, consiste em uma associação de um transtorno de humor (depressão e/ou mania) com uma base de sintomas psicóticos característicos da esquizofrenia. Por isso, para o DSM-V, deve haver um intervalo de pelo menos duas semanas no qual os sintomas psicóticos estão presentes e os sintomas de humor estão ausentes. Existem também alguns transtornos de personalidade que podem ser confundidos com esquizofrenia. Os transtornos de personalidade (TP) do grupo A (TP paranoide, TP esquizoide e TP esquizotípica) são os que mais se assemelham a esquizofrenia, pois no TP paranoide e esquizotípica há crenças idiossincráticas próximas de delírios e no TP esquizoide há pouco apreço pelo contato social. Outros importantes diagnósticos diferenciais psiquiátricos incluem os transtornos de humor (transtorno afetivo bipolar em episódios de mania ou depressão psicóticas, depressão unipolar com sintomas psicóticos), o autismo (que cursa com comprometimentos da fala, comportamentos estranhos e dificuldades de interação social) e o transtorno psicótico induzido por substâncias. 

 CURSO E PROGNÓSTICO 

O paciente que tem esquizofrenia comumente apresenta atraso no desenvolvimento neuropsicomotor, desempenho escolar ruim e dificuldades na sociabilidade durante a infância, bem como anormalidades neurológicas discretas, frequentemente despercebidas (Davidson et al., 1999) (Figura 1). O pródromo do quadro é muito variado, podendo ser constituído por sintomas psicóticos atenuados, isolamento social, e sintomas depressivos e ansiosos, entre outros (Yung & McGorry, 1996). O transtorno geralmente é diagnosticado quando ocorre o primeiro episódio francamente psicótico. Depois, os pacientes comumente têm melhora de sintomas positivos, de humor/ansiedade e de desorganização com o tratamento medicamentoso (com neurolépticos), apesar de não terem boa resposta nos sintomas negativos e cognitivos (Häfner, 1999). É comum que os pacientes tenham recaídas, que frequentemente são desencadeadas pela parada da medicação (Novick et al., 2010). Recaídas repetidas estão ligadas a uma pior resposta ao tratamento farmacológico e a um pior prognóstico (Lieberman et al., 1996). O prognóstico a longo prazo é bastante variado e não está claro se a piora cognitiva (evolução “demencial”) é característica da esquizofrenia (Bio, 2010). Figura 1. Curso de sintomas da esquizofrenia antes, durante e depois da instalação do transtorno. 

 TRATAMENTO 

O tratamento da esquizofrenia envolve três fases distintas: aguda, de estabilização e estável (APA, 2004). Em todo o curso do tratamento é muito importante que o médico tenha uma boa aliança terapêutica com o paciente, pois esta aumenta a aderência às condutas prescritas. Em todas as fases de tratamento, o uso de medicações antipsicóticas (também conhecidas como neurolépticos) é necessário. Os antipsicóticos(AP) mais utilizados atualmente são divididos em dois grupos: AP de 1ª geração ou típicos 78 (por exemplo, haloperidol, clorpromazina e trifluoperazina) e AP de 2ª geração ou atípicos (risperidona, quetiapina, olanzapina, ziprasidona, aripiprazol, clozapina) (Tabela 2). AP de 1ª ou 2ª geração são antagonistas de receptores dopaminérgicos D2. Os AP de 2ª geração diferem dos AP de 1ª geração por apresentarem bloqueio dos receptores serotoninérgicos 5-HT2A. Em teoria, o antagonismo serotonérgico levaria a uma melhora dos sintomas negativos e cognitivos, porém as evidências não confirmam tais efeitos (Leuchtet al., 2009; Agid et al., 2008). Quanto aos efeitos colaterais, estudos mostram que os AP de 1ª geração têm maior potencial de causar sintomas motores extrapiramidais, enquanto os AP de 2ª geração aumentam a incidência de problemas metabólicos (ganho de peso, dislipidemia, intolerância à glicose, diabetes mellitus). Um efeito colateral gravíssimo associado ao uso de qualquer AP é a Síndrome Neuroléptica Maligna. Esta é considerada uma emergência neurológica devido ao alto risco de mortalidade. Sua apresentação normalmente se dá por uma tétrade: alteração do nível de consciência, rigidez muscular, febre e disautonomia. Geralmente ocorre na introdução de algum AP ou com doses muito altas de AP (como em intoxicações por tentativa de suicídio). Geralmente, os pacientes evoluem com uma melhora gradual após a introdução do antipsicótico, com alguma resposta já nos primeiros dias, ficando menos agitados. Nas primeiras 2 semanas de tratamento já é possível observar uma melhora importante naqueles pacientes que vão responder à medicação escolhida (Kinon et al., 2008). No entanto, preconiza-se esperar 4 a 6 semanas para concluir se o paciente respondeu ou não a uma determinada medicação antes de uma eventual substituição (IPAP, 2004). Tabela 2. Tipos de antipsicóticos, sua forma de ação e efeitos colaterais mais freqüentes. Pacientes que apresentaram ausência de resposta a dois AP, sendo ao menos um AP de 2ª geração, administrado adequadamente, são considerados refratários. Estes, que são em torno de um terço do total de pacientes (van Os& Kapur, 2009), são candidatos ao uso de clozapina (IPAP, 2004), um AP de 2ª geração com maior eficácia que as outras medicações, porém com o sério risco de causar discrasias sanguíneas, em especial agranulocitose (1-4%) (Leuchtet al., 2009). A fase aguda de tratamento ocorre quando o paciente apresenta um episódio psicótico agudo e dura de algumas semanas a alguns meses (Falkai et al., 2005). Nesta fase, o paciente frequentemente se apresenta agitado e a internação está indicada se há risco de auto ou heteroagressividade importantes, sendo necessária para proteger tanto o paciente como os outros. Além disso, a internação também oferece proteção contra o uso de substâncias e outros estressores, que podem intensificar os sintomas psicóticos. Quando ocorre agitação, faz-se necessário uso de medicações injetáveis de ação rápida e, em alguns casos, contenção física. As medicações mais usadas em nosso meio para conter agitação são o haloperidol associado à prometazina por via intramuscular (IM) e haloperidol ou midazolam usados sozinhos via IM (Baldaçara et al., 2011).A associação do haloperidol com a prometazina via IM tem a vantagem de a prometazina ter ação sedativa e reduzir o risco de sintomas extrapiramidais. Na fase aguda também se deve iniciar uma medicação antipsicótica por via oral, que será mantida após remissão do surto nas outras fases do tratamento. Na fase de estabilização, que dura de 3 a 6 meses (Falkai et al, 2005), após a melhora do quadro agudo, o antipsicótico que foi efetivo na fase aguda deve ser mantido na mesma dose por pelo menos 6 meses. Na fase estável, que se segue à fase de estabilização e dura de meses a anos (Falkai et al., 2005), pode-se tentar reduzir as medicações para uma dose um pouco menor para reduzir efeitos colaterais presentes. Contudo, deve-se levar em conta o risco de um novo episódio psicótico com a diminuição dos AP. Infelizmente, o risco de um paciente com esquizofrenia ter um novo episódio psicótico é muito alto, em torno de 80%nos 5 anos que se seguem ao primeiro surto (Robinson et al, 1999). O risco é 5 vezes maior para os que pararam de tomar a medicação (Robinson et al, 1999). A princípio, o tratamento de manutenção é recomendado para todos os pacientes. A manutenção de AP por tempo indefinido é absolutamente recomendado na literatura se houver história de múltiplos episódios psicóticos ou mais que um episódio nos últimos cinco anos (APA, 2004). Ainda que o tratamento se baseie principalmente em AP, durante todo o processo terapêutico, os pacientes se beneficiam também de intervenções sócio-comunitárias (Marshall & Lockwood, 2000) e psicoterápicas (especialmente terapia cognitivo comportamental) (Wykes et al., 2008), que pressupõe o uso de medicações para serem eficazes (Falkai et al., 2005). Ainda que o uso da eletroconvulsoterapia (ECT) tenha sido envolto por uma série de preconceitos no passado, sabe-se hoje que alguns pacientes se beneficiam muito de sua aplicação (Zervas etal., 2012). As principais indicações para realização de ECT são esquizofrenia catatônica ou refratária ao tratamento medicamentoso (Zervas etal., 2012; Conselho Federal de Medicina, 2002).O procedimento deve ser feito em ambiente hospitalar e com a utilização de anestésicos (Conselho Federal de Medicina, 2002). 


REFERÊNCIAS: 

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Superando a esquizofrenia pela experiência do amor

Esse é o capítulo 9 do livro: "PSICOPATAS: FANTASIA OU REALIDADE: CONHEÇA COMO FUNCIONA A MENTE DOS PSICOPATAS E ESQUIZOFRÊNICOS"

Talvez a superação seja o desespero crucial na vida de uma pessoa quando ela decide transformar sua doença em algo útil, ainda podemos vislumbrar um futuro promissor, mesmo diante de um estado alterado de consciência, onde a fantasia tomou conta de sua vida e fez dela a droga principal da existência. Uma compulsão capaz de investir toda sua energia psíquica com a única finalidade de poder dar conta de seu estado de inconsciência, onde o desejo se sobressai sobre todas as formas disfarçadas de superioridade, onde os delírios de grandeza e perseguição atribuem significado ilustrado no modo de viver a própria loucura, e mesmo nas fugas imaginárias, ainda é possível vislumbrar uma confiança perdida. Mergulhados nas sombras de seus devaneios, aparece um lampejo de consciência das possibilidades de encontrar-se consigo mesmo, e através da loucura imaginária tornar seu potencial de inteligência em algo produtivo. O desespero de não poder atender as cobranças da existência, os projetos megalomaníacos sustentados pelo desejo de grandeza, amplia ainda mais o surto psicótico, uma megalomania que não esconde sua imperfeição ou suas limitações, o estado de culpa e medo aumenta a ansiedade, podendo chegar a viver num completo pânico.  Existe uma cobrança interna de superar-se e encontrar uma razão para a sua vida, em conseguir aprovação e reconhecimento das potencialidades, a experiência pessoal retrata seu desejo de superação, enquanto houver consciência para entender as escolhas e fantasias como imagens portadoras da ficção, onde os estereótipos ocupam o lugar da realidade, de suas dificuldades e limitações. O vazio existencial vem do fato de sentir-se inútil pelas cobranças do seu superego, o castigo pessoal do sofrimento, da rejeição e abandono, retrata sua condição de inferioridade, na ilusão sofre a invasão do complexo autônomo, uma pulsão do mundo da fantasia, realidade das imagens. A imaginação pode favorecer na fantasia o espaço para pensar um lugar de destaque e valorização, envolvendo numa atmosfera de extrema importância, isso significa um espaço na fantasia onde possa ser reconhecido. Todo ser humano precisa sentir-se produtivo, os resultados fortalecem sua autoestima, melhoram seu conceito pessoal e sua imagem pessoal, afinal de contas uma das estratégias de receber o amor afetivo é através dos elogios. Ocupar o lugar de destaque na fantasia recria a condição de viver como uma pessoa superior aos demais, e com tal nível de inteligência e capacidade na solução dos problemas pode ascender a um lugar de destaque no meio social, cultural e científico. O que dizer do delírio persecutório? Porque a mente inconsciente precisa dos estereótipos de vigilância e punição? Como livrar-se das fantasias que ocupam o lugar da realidade? O olhar das cobranças, vigilância, dos medos, inibições, ocupa um lugar de destaque em sua vida, apesar de poder usufruir da megalomania, não pode prescindir da existência dos delírios persecutórios das figuras de autoridade. Um conflito que lhe tira a paz e tranquilidade, agora precisa além de investir sua energia psíquica nos delírios de grandeza, necessita encontrar estratégias para fazer frente às ameaças do estereótipo de rispidez, exigência e controle. A fantasia se mistura com a realidade, e o cérebro acaba sendo convencido de que vive, emociona-se e relaciona-se com o mundo das relações virtuais, sem dúvida a mente inconsciente sofre com a dificuldade em abandonar o pretenso prazer de mega sucesso, investido de um poder megalomaníaco desenvolve uma atitude de confiança, de superioridade e de extremo prazer em viver segundo as fantasias, e viver segundo os prazeres das fantasias torna-se um vício. Existe somente realização, competência, inteligência, ignorando toda e qualquer percepção de inferioridade, só assim é possível ser produtivo e ter espaço para a criatividade, onde todas as pessoas e lugares obedecem ao princípio de sua megalomania, aqui torna-se possível experimentar a segurança emocional, a determinação em mostrar toda sua capacidade, sem a interferência do complexo de inferioridade. Tem a necessidade de ser aceito socialmente, o cérebro precisa abastecer-se com os investimentos de admiração, onde seja possível uma relação de igualdade e valorização pela demonstração do seu potencial produtivo e criativo, e descobre através das suas experiências um mundo possível e uma saída para seu dilema esquizofrênico. Talvez uma única experiência possa iluminar a lucidez de suas atitudes, em um mundo onde fosse possível respeitar as diferenças e as contradições, algum lugar é possível perder o medo e aproximar-se da realidade, aos poucos a mente segue obedecendo o fluxo interminável de uma rede associativa de imagens, mas não existe nada mais concreto que as sucessivas tentativas de encontrar a motivação, ou um caminho saudável para viver o amor. A esquizofrenia é a presença de dois mundos, onde a mente inconsciente precisa aprender a dialogar com ambas as exigências, não existe uma confluência lógica no padrão de viver, simplesmente a tempestade de emoções oriundas dos seus exercícios contínuos de aprender a resolver seus dilemas pessoais, profissionais e afetivos. Na verdade, todo investimento de energia é uma tentativa de encontrar um método eficaz para atender as suas demandas pessoais, por isso os prejuízos são enormes quando não consegue distribuir energia psíquica com igualdade. Talvez a mente cumpre com o nobre papel de recriar realidades fictícias numa tentativa de incluir suas intuições sobre as pretensões dos desejos, o diálogo entre as necessidades fundamentais e importantes do ser humano, abre possibilidades para pensar sobre o seu potencial criativo e também dos traumas e bloqueios escondidos nos domínios das emoções. A esquizofrenia realiza o importante papel de pensar através da fantasia, e nas tentativas sucessivas de erros e acertos volta toda atenção para a realidade emocional, emoções carregadas daquilo que é mais nobre na existência humana, a expressão da pulsão de vida ou de morte, e através do impulso vital nasce a necessidade de superação, numa tentativa desesperada de encontrar respostas para seus dilemas. Quando o ser humano se volta para o diálogo do silêncio, permite ao pensamento viajar por lugares nunca antes visitados, enquanto estiver mergulhado nas influências imagógicas. Aprendendo a adquirir por conta própria a confiança necessária para sair do surto psicótico, onde a realidade se mescla com tons de magia e feitiçaria, talvez a resposta sempre existisse onde a mente jamais imaginou visitar, porque sabe da complexidade da inteligência da vida. Os dilemas nascem da necessidade de afirmação, onde a natureza expressa o potencial de curiosidade, das condições para pensar nas possibilidades ilimitadas de resolver um dilema existencial. A ideia de que é necessário pagar um preço muito alto para realizar objetivos surge a partir da obsessão, onde apenas aquele objetivo acaba sendo priorizado em detrimento de outras áreas importantes da existência. Talvez não seja necessário controlar o tempo ou ganhar tempo, mas ser capaz de compreender que a paciência, tolerância, perseverança, poderia fazer da experiência uma conquista saudável sem os enormes prejuízos da compulsão. Os prazos exigem uma dedicação e empenho em algumas tarefas, um comprometimento com a saúde psíquica e orgânica, devido ao nível de exigência descabido e fora do normal, infelizmente muitos pagam um preço muito caro por suas conquistas e acham isso natural, e na compulsão recaem no descontrole e desequilíbrio das funções cognitivas e emocionais. As descobertas precisam de espaço para oxigenação, onde seja possível respirar a liberdade e poder orientar-se de acordo com as suas necessidades mais proeminentes, às vezes a mente fica enfeitiçada com ideologias sectárias e extremistas, por isso no estado de inconsciência é natural o comprometimento da saúde e da felicidade. É muito estranho viver num completo isolamento, talvez alguns sonhos não sejam nada além de uma fuga da realidade, porque onde encontram-se os traumas e medos, é natural enfatizar com desculpas e justificativas o seu completo afastamento. Todas as decisões estão sendo induzidas pelas expressões das emoções de inferioridade, enquanto prevalecer a imagem distorcida de si mesmo sempre acontecerá o inevitável: solidão e isolamento. Porque as “fixações” produzem as deduções alucinantes, onde assume aquela condição de vida, onde investe todos os seus recursos para consolidar verdades as neuróticas absolutas, e com o tempo podem se tornar psicóticas ou esquizofrênicas. Então, a neurose cumpre com o seu papel sedutor de convencer a consciência a continuar na mesma condição de vida, distorcendo e fazendo acreditar em um determinado modo de vida, uma interpretação com distorção dos fatos e de sua realidade pessoal. Quando a solidão e o isolamento seria uma vantagem? De que maneira a neurose poderia convencer a pessoa a acreditar em suas distorções da realidade? Enfim, seriam muitas as questões em debate para entender a complexa rede de manipulação de um mundo fantástico de estereótipos, pois eles procuram de qualquer maneira estigmatizar e convencer sua vítima da ilusão. Os recursos da alucinação procedem do grau de astúcia e inteligência em ocupar o lugar de destaque e importância na vida das pessoas, sua influência é enorme, pois suas explicações convencem e conseguem fazê-lo acreditar em suas verdades, e talvez porque as alucinações ofereçam a realização e a satisfação de seus pontos fracos. A alucinação consegue ajudá-lo a fazer a experiência num mundo fantástico de ilusões, onde as emoções e projeções podem ser vividas como se fossem reais. Determinadas “fantasias” ocupam o lugar de destaque nas “alucinações”, e incorporam um estereótipo de grandeza, poder, inteligência, com tais qualidades conseguem ocupar o lugar de destaque em sua vida, proporcionado a experiência de mania de grandeza, poder e glória, onde o estado de alienação exerce o controle sobre a mente inconsciente. Apesar dos diálogos e embates dialéticos proporcionados pelas alucinações, elas sempre acabam prevalecendo a falsidade de suas deduções e interpretações. Com o olhar atento a inferioridade não consegue afastar-se ou ao menos distanciar-se, devido ao contágio alucinante da droga conhecida como vaidade, existe sim um privilégio em especial de poder ocupar o lugar de destaque, de liderança, na experiência da fantasia seu corpo vive a experiência como se fosse uma verdade, por isso parece tão real, e por várias vezes a fantasia se confunde com a realidade. Como o estereótipo da “anunciação” conhece a necessidade da inferioridade, precisa torna-se uma presa fácil para atender as demandas de afirmação e realização, infelizmente os convites são aceitos, e depois de estabelecer as regras e o lugar que cada uma ocupa na sua vida, as imagogias fantásticas tornam-se realidades virtuais, e cumprem papel importante na solução da inferioridade. Existe de fato um pacto entre as alucinações, e aquela parte da consciência que faz questão de conviver com o mundo fantástico de ilusões propiciado pelas suas alucinações. Quanto maior for a inferioridade, na mesma proporção será a incidência das alucinações, elas não medem esforços para descrever o mundo fantástico de mentira e alienação, pois a intimidade torna-se aos poucos uma grande amizade, e aos poucos se tornam atores coadjuvantes em sua vida. O limite das atrocidades humanas é a imaginação. Na alucinação existe uma prospecção de valorização e reconhecimento, onde a mente é convidada a tornar-se submissa e obedecer aos desejos das “imagens”, porém o esforço se esgota no momento em que não é mais possível conviver com as exigências enlouquecidas da compulsão. Um instante onde confunde o seu papel de pessoa com aquele ocupado no imaginário de suas fantasias, e sem dúvida defende e acredita no papel desempenhado por cada alucinação, por isso não existe um meio de conciliar suas fantasias com a realidade, porque em seu delírio persecutório quem se aproxima pode ser o seu inimigo. As alucinações por algum momento se afastam, mas em seguida se aproximam e exigem a continuidade dos pactos de megalomania. O surto acontece quando a mente inconsciente se encontra totalmente absorvida e envolvida nas figuras que representam seus afetos, desafetos, amores e horrores, momento onde impera a presença total da imaginação a serviço da megalomania. A confusão da mente acontece quando a “persona” assume o papel como se fosse real, e por isso instala-se uma dicotomia, uma separação, uma divisão aparece com extrema nitidez entre aquilo que todos conhecem e naquilo que ele diz ser. Quando acontece o ataque emocional de fúria, raiva, ódio, violência, podemos observar o domínio total da presença do complexo autônomo, onde a persona aparece com todas as suas sombras, representando uma realidade fantástica e virtual, um relacionamento que compromete sua saúde mental e psíquica, não resta alternativa  a não ser as camisas de forças utilizadas na psiquiatria, como o único modo de paralisar o surto, precisa diminuir o estado de ansiedade e sedar sua consciência. Os medicamentos em alguns casos podem trazê-lo para a realidade e retirá-lo do surto esquizofrênico, as pessoas que convivem com a doença também estão sendo atingidas, e são codependentes dos delírios persecutórios e da mania de grandeza. Muitos acabam acreditando e vivendo segundo as histórias convincentes, mas não reais, existe uma invasão total das fantasias tornando-se realidade, diante dos fatos concretos e óbvios, não pode voltar atrás, questionar ou levantar dúvidas sobre as suas alucinações, porque seria aceitar a loucura. Agora assume o compromisso de verificar e tentar enxergar os fatos, onde não existe a averiguação aumenta ainda mais a confusão mental, esgotado e confuso não resta alternativa a não ser o suicídio. A mente está completamente envolvida pelas histórias, elas parecem num primeiro momento muito convincentes pelo lugar ocupado na vida da pessoa, de fato são apenas figuras ilustrativas de seu devaneio. Envolvido na semântica de diálogos, onde seus fantasmas sempre aparecem para produzir mais confusão, uma ficção muito bem elaborada, com a finalidade de produzir um impacto sobre a mente, um mundo de fantasia com contornos de realidade, onde cada personagem desencadeia na alucinação o papel fascinante de “persona”, um estereótipo com vida própria, e está na defesa intransigente de permanecer a qualquer custo na vida da pessoa. Mas existe alguma doença que o amor não cure? Qual é o poder miraculoso dos afetos do amor? Viver conforme o vínculo do amor desperta o interesse pela vida? Como o amor pode reforçar a autoestima e diminuir o impacto do complexo de inferioridade? Que droga o amor possui para deixar as pessoas apaixonadas e felizes? Os apegos do amor podem desencadear um cuidado por si mesmo? Uma enormidade de questões que poderíamos refletir, inclusive sobre o valor e a importância da experiência mágica do amor, existe uma necessidade urgente e necessária de sentir-se amado. Mas porque muitos fogem do amor? O amor pode representar a valorização, os afetos, o respeito e consideração, os olhares de admiração reforçam a presença da aceitação incondicional, e não existe nada mais importante na vida, que uma pessoa passar pela experiência de não se sentir sozinho e isolado. Um estado de bem aventurança amplia e reforça a confiança em si mesmo, enaltece a sua condição humana e atende as carências afetivas, o efeito curativo do amor nasce da vivência oportuna e útil, em apreciar e valorizar os afetos de reconhecimento. Em instantes mágicos aprecia o valor do gesto autêntico, saber apreciar e valorizar as qualidades humanas, uma indescritível sensação de bem estar, a segurança emocional proporcionada pelo amor, ele reacende o desejo de viver. O único modo de resolver as questões afetivas passa pela experiência verdadeira de amor, ele ocupa o espaço de confiança, ternura, bondade, compaixão, alteridade, qualidades humanas que curam o espírito. Talvez seja o único modo de revigorar o desejo de amar, ao vivenciar a emoção do amor traz à consciência uma segurança, um desejo imenso de lutar pela sobrevivência. A expressão do amor reacende sempre a desconfiança de ser amado, e cada qual deverá cumprir seu papel de coadjuvante na procura interminável de alguém para amá-lo. O amor encontra-se perdido e ao mesmo tempo procurando o seu lugar no espírito humano, nas interações de forças vitais encontra-se o esforço dinâmico de jamais ceder ou desistir de encontrar o grande amor, desejo de duas almas procurando um espaço para viver a liberdade dos afetos. O amor vibra por todos os órgãos do corpo e enaltece aquilo de mais sagrado na vida humana, o olhar de admiração, apreço, uma energia emocional com poder de provocar o entusiasmo pela vida. O amor ocupa o espaço afetivo e favorece a relação de intimidade, de carinho e aprendizado, onde duas almas procuram satisfazer e atender as suas demandas psíquicas e existenciais. A doença nos passa a ideia de inconformismo, de não aceitação, uma espécie de reclamação visível no corpo, na vida, nas atitudes, nas distorções da realidade, em todas as manifestações encontra-se uma rebeldia procurando seu devido lugar na expressão dos amores e afetos, são desejos permeados de conquista equilibrada, felicidade, de autorrealização, em todas as instâncias aparece sempre a necessidade de encontrar-se através do amor, aqui podemos constatar a possibilidade de confirmar o seu próprio valor através do olhar amoroso expressivo. O amor é uma energia mutante e transforma vidas, cura espíritos, traz a saúde, reacende o desejo de viver, talvez por isso seja uma emoção de destaque na vida de qualquer pessoa, amores híbridos, transformados pela condição humana, insistem cada vez mais na expressão de atender ao desejo de amar e ser amado. O amor é a única segurança possível capaz de atender as maluquices das fantasias e dos destemperos do ciúme e inveja. O amor inspira no desejo a admiração, nos gestos sublimes de apreço. O único modo de curar a esquizofrenia é aproximar-se da realidade e nas interações de afeto e diálogo, proporcionar a experiência de perder o medo de amar.  Esta emoção é a presença de humanidade, oportunizando uma aproximação dos afetos em detrimento ao racional, lógico, onde o discurso ocupa o lugar da expressão. As fantasias conseguem convencer a afastar-se de todo contato e aproximação humana, somente novas experiências e muito esforço poderia devolver a coragem para voltar a vincular-se e experimentar a sensação agradável do prazer sensual, de aprender a conviver com sua humanidade. A retomada da realidade impõe o gesto humano de aproximação, no esforço de conviver com a humanidade, aprender a equalizar uma aproximação com o humano, onde as incertezas e probabilidades sempre se fazem presentes, sair da condição de superioridade e sujeitar-se a conviver com as limitações de uma inferioridade, que insiste em diminuir e desprestigiar suas conquistas. Mas são duas realidades interpostas de comum acordo, procurando atender aos desejos inconscientes da afirmação do amor, por um lado uma mente que procura na fantasia preencher as lacunas de suas carências, e por outro os caminhos tortuosos da incerteza das relações humanas. Implicados no desejo de aprender sobre o amor e suas infinitas possibilidades de aceitação e superação, saindo da condição de uma mente viciada num mundo de mentiras. Aprende sobre as extensões do amor aos filhos, aos pais, ao trabalho, porém o desligamento da realidade e o afastamento para o mundo de fantasia, pode incorrer em sério risco de esquecer-se dos que precisam de sua presença. No estado de impotência e confusão mental precisa fugir e esconder-se de qualquer aproximação humana, e através dos delírios e alucinações amplia ainda mais seu nível de estresse e ansiedade, por isso busca refúgio nas histórias distorcidas da sua vida, e nas imersões desloca seu ser numa busca frenética e incansável de aproximar-se daquilo que poderia chamar de real, sua mente não consegue mais fazer a separação, deslocou para um mundo de ficção aquilo que não poderia mais ser aceito como real. Ao finalizarmos as reflexões sobre a relação simbiótica entre a mente humana e as fantasias, evidenciamos que muitas vezes nos distanciamos ainda mais dos princípios que poderiam alertar sobre os dilemas das frustações e do poder curador do amor. Mesmo diante das mais estranhas dificuldades o maior dos desafios é estar ciente ou consciente das próprias limitações, e aprender a surpreender as próprias fantasias. Somente o tempo e no decorrer de sua história poderá valorizar e reconhecer a produtividade, esta é uma luta inigualável e persistente em jamais abandonar seus sonhos mesmo diante das debilidades de uma mente enfraquecida pelas fantasias, e esquizofrenia. Talvez somente o caminho tortuoso e doloroso do sofrimento possa ensinar o valor precioso da consciência, sob as duras penas do abandono, e depois como num passe de mágica podemos entender os novos pactos entre realidade e fantasia, com consciência pode fazer o exercício mental de não se deixar seduzir ou convencer pelos interesses escusos das fantasias. Na loucura precisa aprender a diferenciar o real da fantasia, não pode mais apenas fazer-se de vítima quando pode ser o agente de suas próprias decisões, infelizmente o silêncio pode ser traduzido nas elucubrações de imagens que persistem em aparecer e serem reconhecidas. Então a sanidade é aquilo que resta entre as instâncias por onde viajam as imagens, e com o tempo podem ser reduzidas ao mundo fantástico do imaginário. Aprender a desconfiar do poder ilusório das fantasias e, entender que precisa delas nos momentos de seus devaneios ou crises existenciais, mas na maior parte do tempo pode mantê-las bastante longe de sua vida. Não temos como prever o que poderá acontecer, e às vezes somos surpreendidos pelos benefícios de uma teimosia de amor, e justamente as conquistas conseguem fazer dos esforços e dedicação a causa maior daquilo que nos impele a jamais desistir de nossos sonhos. Os caminhos da conquista são imprevisíveis e cheios de incerteza, jamais poderíamos prever aquilo que a existência já tinha preparado antes mesmo de possuirmos consciência, são justamente as surpresas que fazem da existência um espaço de tempo precioso, para cada ser humano realizar sua experiência independente de sua doença. Enquanto existe vida podemos contar com a consciência de compreender na singeleza de cada encontro com “insights” importantes e decisivos, onde a lógica racional desaparece para dar lugar aos afetos, as dimensões da paciência e tolerância daquilo que não podemos resolver. Existe uma enorme possibilidade de aprender a conviver com as incertezas no mar quântico de probabilidades, nem mesmo as doenças mais graves podem retirar do homem sua esperança de realizar seus sonhos. Eis aqui o valor de uma consciência humanizada que aprendeu a insistir sempre, em escolher o caminho da superação, onde cada adversidade pode tornar-se uma âncora. Saber sobre si mesmo e reconhecer suas limitações, mas jamais abrir mão do encontro infalível com os benefícios do amor, vivências permeadas de alegrias capazes de reacender o desejo de ser amado e ser capaz de amar, mesmo depois de toda uma existência em busca desse tesouro perdido, escondido na essência do seu inconsciente. Um legado de aprendizado emocional onde é possível estabelecer novas regras de convivência com as fantasias e investir a energia psíquica naquilo que é mais nobre e maravilhoso na existência, seu desejo inabalável de ser reconhecido e valorizado.  Então, valeu a pensa existir, não interessam os dilemas, interessa saber sobre seu interesse em defender a vida, e amá-la acima de todos os pretextos que insistem no contrário. 


Bibliografia

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