Capítulo do livro: "Filicídio - Considerações sobre o narcisismo"
No âmbito da mente, simbiose é uma vivência, meramente emocional, de dois seres em um, como uma das expressões do narcisismo patológico. É um estado que merece estudo cuidadoso, pois de sua compreensão deriva o êxito no tratamento de importantes doenças mentais.
É óbvio que a simbiose deriva da ligação mãe-bebê, uma ligação física e emocional perfeita durante a vida intrauterina e claramente evidenciada na existência concreta do cordão umbilical.
Como a denominação sugere, a simbiose comporta, ao mesmo tempo, a fixação de um filho num estado muito primitivo do seu desenvolvimento emocional concomitante ao comportamento de sua mãe, durante, e, sobretudo, após o processo de gestação, concretizando um narcisismo patológico próprio de pessoas de personalidade psicótica, que podem ou não apresentar uma psicose. Nem todo narcísico-patológico, porém, expressa seu narcisismo através da simbiose. Alguns conseguem superar o problema; outros o contém, pelo menos no terreno do "mental".
Por todos os conhecimentos que se tem até hoje, mãe e bebê, durante a gravidez, apesar de serem duas, formam uma só pessoa. Logo de início, digamos, no primeiro mês, a mãe, quando normal, ainda não percebe a existência do filho no ventre, embora possa imaginar como está nessa fase e como será ao nascer. Com o passar dos meses, porém, não só imagina, como sente o filho dentro de si, e passa a viver com ele. Acostuma-se com a vida a dois de tal modo que funciona e age como se ela e o bebê fossem uma só pessoa, até a hora do parto, momento da separação, em que fica bem claro que sempre existiram, desde o começo, duas pessoas distintas.
O parto é um momento muito importante e decisivo, tanto para a mãe quanto para o filho. Podem surgir crises de depressão na mulher normal e crises de psicose nas personalidades psicóticas (narcísico-patológicas) para as quais o registro da perda de uma parte de si mesmas é mais acentuado que o ganho de um filho. Essa ruptura psicótica - assim sentida pela mãe - acarreta sempre uma alteração qualquer, em grans diversos, na relação profundamente simbiótica, física e mentalmente, entre mãe e filho.
A mãe que não tenha ultrapassado sua fase de narcisismo patológico não consegue perceber nem efetivar o desligamento concreto do filho que nasce. Continua agindo como se ainda o carregasse no ventre, como se ambos fossem uma só e única pessoa. Muitas mães não tem um ego suficientemente forte para desenvolver uma crise psicótica, nem mesmo para pequenas crises subclínicas que, em geral, passam despercebidas, quanto mais para sofrer uma verdadeira crise de psicose puerperal, em que sentiria, de maneira aguda e concreta, o desligamento do filho.
Creio que a manutenção emocional da situação simbiótica depende muito do grau de capacidade de sofrer separações que a parturiente apresenta por ocasião do parto. Essa capacidade se manifesta em pequenas crises psicóticas, tais como excitação e dificuldade de conciliar o sono ou crises de choro aparentemente sem motivo, durante alguns dias após o parto. Arrisco-me a dizer que é nessas e por essas pequenas crises de mania e depressão que se processa realmente a efetivação da ruptura, já que a mãe está com capacidade de sentir e de sofrer o que de fato é uma perda, não só de uma parte de si, como de um estado físico e mental. Demonstra estar apta a reorganizar novamente sua vida como pessoa independente.
São muito variadas as manifestações psicóticas pós-parto. Não creio ser necessário alinhá-las todas. O que desejo deixar bem claro é que essas crises revelam uma situação muito favorável ao recém-nascido, propiciando-lhe ótimas condições de desenvolvimento emocional, na certeza inconsciente de que a mãe rompeu efetivamente a situação simbiótica, liberando-o, também, para uma futura independência total.
A mãe que não consegue romper mentalmente a ligação simbiótica na hora do parto manterá o filho sempre em sua dependência, enquanto ela mesma vive na dependência desta dependência. Isso explica a dificuldade de um eventual futuro tratamento de ambos.
Pode acontecer também que, num caso de simbiose emocional, a mãe engravide novamente. Desfaz-se o par simbiótico. A mãe fica livre, inteira, disponível, para um segundo estado simbiótico. O filho, então, passa bruscamente à sensação de estar mutilado, de ser apenas uma metade, como de fato é. Fica doente, ou se agravam seus sintomas: "Ficou doente quando a mãe engravidou do segundo filho". De fato é bastante critica a quebra de uma situação em que, na falta de objetos internos próprios, a pessoa se serve de um prolongamento, da mãe, objeto externo, concreto. A retirada desse apoio atua como uma decretação de morte pela incapacidade que trouxe, ao nascer, de reorganizar sua vida mental. Assim é que se produzem famílias inteiras que são psicóticas.
A compreensão da continuidade do estado simbiótico mãe-bebê é de fundamental importância para o terapeuta. Se conseguir detectar a origem simbiótica de uma doença mental, compreenderá que, apesar de independente como pessoa, com todos os requisitos adequados - órgãos, aparelhos, sistemas orgânicos para realizar uma vida própria, um paciente pode ainda não ter nascido, não ser ninguém para a mãe narcísico- patológica. Quanto à mãe, ela não tem espaço interno nem para os próprios objetos parentais, quanto mais para objetivar a imagem do filho. Este sempre será uma parte concreta do corpo dela. O que existe, na verdade, é apenas ela e suas necessidades vitais. É como se fossem dois corpos com uma só cabeça, a sua, numa figuração concretizada. O filho é apenas um prolongamento corporal e "mental" dela. Tenho sempre em mente a mãe de um adolescente internado na Pensão Margaridas por apresentar uma crise de psicose aguda. A crise representou uma melhora em seu estado simbiótico, pois enlouquecer requer certo grau de saúde mental. A mãe então ficou perdida, confusa com o ato individual do filho, mas mesmo assim o internou, temendo a possibilidade de uma agressão física. Seria um pseudopode se revoltando contra o resto do corpo, cena inconcebível para uma pessoa narcísico-simbiótica?
"Como é que um pedaço de mim quer tornar-se independente de mim mesma?", era a pergunta inconsciente dessa mãe, ela mesma nada podendo fazer, por vivenciar também a situação de interdependência do filho. Esse meu paciente da Pensão Margaridas se recuperou em uma semana (masoquismo?) e a mãe o "requisitou" de volta para casa imediatamente, dizendo: "Não me interessa se ele está bem ou mal, se precisa de tratamento ou não, o que me interessa é que eu preciso dele, e isso basta!"
Acredito que o que aconteceu com os dois, ou com o um que representavam, se levarmos em conta a profunda situação simbiótica, foi que o filho, entrando numa crise psicótica, revelou ter saúde, vida, numa tentativa, ainda que tardia, de independência - pelo menos física. Não quer dizer que tenha conseguido se desligar mentalmente, tanto que passou para outro tipo de crise, em que não consegue usar sua saúde. Explico melhor: a crise psicótica desse adolescente foi uma crise de saúde, pois era uma tentativa de se separar da mãe, mas logo a seguir se tomou uma crise de doença, pois não sabia o que fazer com sua independência, uma vez que não estava aparelhado "mentalmente" para ser independente. Usou o que tinha de independência, que é saúde, para agredir a mãe, o que é uma manifestação de doença. E foi internado como "louco", pois em determinado momento não pôde se conter todo dentro de si. Enquanto vivia simbioticamente com a mãe, sendo apenas "uma metade", tudo ia bem. Mas quando, de repente, ao tentar agir com independência, descobriu inconscientemente que vivia como uma "metade" e conseguiu ter uma crise psicótica, considero está uma crise de saúde. A também mãe passou a sentir que era apenas uma "metade" e suportou mal o fato, pois o rompimento do trato inconsciente foi brusco demais, sem uma necessária preparação. Se essa mãe fosse capaz de fazer (produzir) identificações projetivas, também poderia ter uma crise psicótica, desfazendo a simbiose e permitindo ao filho ser ele mesmo.
A simbiose impede, ou não propicia a formação de identificações projetivas, já que cada vez que um dos componentes do par simbiótico tenta fazer uma identificação projetiva, poderá estar projetando uma parte de si mesmo no outro, ao contrário da situação em que o bebê faz identificações projetivas na mãe, vivida como alguém de fora, fisicamente desligada dele.
No caso do par simbiótico, o bebê vivencia a mãe e vice-versa, ambos como sendo um prolongamento físico um do outro. Cada um vive um "não- ser" desconfortável internamente, mas que não incomoda tanto quanto uma crise psicótica, que é a tentativa de desfazer o laço simbiótico e narcísico patológico. Se, por um lado, a situação simbiótica incomoda pouco, por outro não oferece as saídas que uma crise psicótica pode propiciar. Estou cada vez mais certa de que não existe um paciente simbiótico, mas um par simbiótico narcísico patológico, mãe-filho que, em termos de tratamento, deve ser considerado como um conjunto, como uma só pessoa. Para a individualização de cada uma das pessoas, mãe e filho, essa pessoa primitiva "mãe-bebê" tem que morrer (psicologicamente, claro). Nem todos os componentes das duplas suportam essa "morte", necessária para que, nascendo efetivamente, se tornem pessoas independentes. Se a mãe não tiver um acompanhamento terapêutico concomitante, o tratamento do filho estará fadado ao insucesso.
Referi-me linhas atrás a um possível comportamento masoquista do adolescente em questão. É que alguém menos predisposto à aniquilação, ao "não-ser", teria levado mais tempo para se curar da crise psicótica, proporcionando à mãe, sua outra metade, um tempo maior, necessário para ela também se refazer da quebra da situação simbiótica. Assim, essa mãe poderia até continuar a ser muito doente, psicótica, mas teria rompido a vivência doentia de ser "metade" com aparência de inteira. Um tempo mais longo, propiciado pela crise do adolescente, lhe teria dado condições de suportar o "nascimento" do filho, mesmo que tardio, podendo ela também. afinal, reaver sua independência como pessoa. Melhorando em pouco tempo, digo que meu paciente piorou, pois achou-se imediatamente pronto a restabelecer a ligação simbiótica que, se para o leigo passa despercebida, é extremamente destrutiva, bem o sabemos; e para ambos, mãe e filho. Portanto, observando os fatos, cheguei à conclusão de que a breve cura da crise psicótica de meu paciente foi uma expressão de masoquismo - suicídio seria a palavra melhor para designar sua volta ao "não-ser".
Nesses casos de vivência simbiótica é preciso também compreender o comportamento da mãe que procura interromper o tratamento do filho hospitalizado. Separada dele, vê-se de repente e bruscamente à mercê de seus impulsos internos autodestrutivos. Faltando-lhe uma metade, precisa "recuperar" a outra parte de si mesma, o filho. De outro lado, em sua incapacidade de internalização de imagens, o fato de não ver o filho, de não tê-lo por perto, a leva à desagradável sensação de que ele não existe mais; passa, então, a criar fantasias muito sérias a respeito de sua morte. Também é muito violenta a ameaça de morte que sente em relação a si mesma.
Compreende-se então que não é por maldade que a mãe retira o filho do tratamento hospitalar; trata-se tão somente de um problema de narcisismo patológico e de simbiose, mais de simbiose que de narcisismo. Numa relação em que a simbiose tivesse se desfeito, mesmo sendo mãe e filho pessoas narcísico-patológicas, seria muito possível que a mãe não interferisse na continuação do tratamento do paciente.
De tudo que acabamos de expor, infere-se o quanto é importante o atendimento da família para o êxito do tratamento do paciente. A observação do comportamento dos pais e, sobretudo, da mãe de pacientes psicóticos. levou-me a entender a formação e estruturação de uma família psicótica. Eu hoje acrescentaria que na base da situação simbiótica está o filicídio: um filho que nem nasce como pessoa, permanece sendo apenas um apêndice de uma mãe extremamente doente.