Este é o capítulo 2 do livro: "Psicopatas: O Espectro do Mal"
O cérebro do Psicopata parece funcionar como o de um adolescente. Egocêntrico, impulsivo e infantil, tal qual um jovem, ele é incapaz de postergar gratificação. O psiquiatra Robert Hare relata que no início pensava-se que era o desenvolvimento do cérebro, a uma taxa anormalmente baixa, que estaria por trás deste tipo de comportamento. Entretanto, ele argumenta, essa hipótese é inconsistente com o fato de que a Psicopatia pode ser detectada até mesmo em crianças. Sendo assim, ele continua, o modelo da ‘página em branco’, segundo o qual o Psicopata é produto de tratamento inadequado durante a infância teve que ser abandonado. Segundo ele, pais de Psicopatas não têm dificuldade para reconhecer que seus filhos são diferentes das outras crianças. A verdade é que a causa desta patologia, assim como a de todas as outras, é um mistério. Há, entretanto, evidências de que é altamente correlacionada com atividade neuronal anormal em regiões específicas do cérebro, causadas tanto por problemas genéticos quanto por problemas de desenvolvimento no início da vida.
O MODELO INTERATIVO
O modelo interativo é hoje o mais aceito para explicar as causas da Psicopatia. Bins & Taborda argumentam que psicopatas teriam uma predisposição genética ou de desenvolvimento que floresceria quando exposta a um ambiente propício. Ou seja, o modelo para explicar as causas da Psicopatia seria basicamente o mesmo adotado para explicar as demais psicopatologias. Nesse cenário, dado os genes ‘corretos’, a dificuldade dos pais para formar vínculo com o recém-nascido poderia levar ao surgimento de alterações neuronais, que mais tarde seriam associadas a distúrbios, incluindo a Psicopatia. A ‘teoria do vínculo’ mostra que, de fato, há uma correlação entre negligência e abuso e depressão, uso de drogas, violência, crime e suicídio.
O FATOR AMBIENTAL
Sabe-se hoje que influências ambientais, em especial a relação entre pais e bebê nos primeiros 1.000 dias de vida a partir da concepção, são tão importantes quanto a herança genética. Segundo Kiehl & Hoffman, até 2011 não havia estudos demonstrando a correlação entre fatores ambientais e os casos mais graves de Psicopatia. Em estudo apresentado por Hare em 1990 não foi detectada qualquer diferença entre famílias de prisioneiros Psicopatas e não-Psicopatas. Contudo, sabe-se que a dificuldade que pais Psicopatas sentem para criar vínculo com seus bebês poderia aumentar ainda mais as chances de seus filhos se tornarem Psicopatas. Pais não-Psicopatas, por outro lado, poderiam sentir dificuldade semelhante ao tentar se conectar ou formar vínculo com um bebê Psicopata. Isso demonstra o quanto é difícil determinar até que ponto são os genes ou o ambiente os principais responsáveis pelo surgimento desta patologia.
O FATOR GENÉTICO
O que se sabe ao certo é que fatores genéticos podem dar ao indivíduo uma certa desvantagem quanto à capacidade de socialização e formação de consciência. Mas eles por si só não são capazes de determinar que tipo de Psicopata o indivíduo se tornará. É o ambiente que irá definir se ele será um Psicopata ‘anti-social’, criminoso, que infringe as leis, ou um Psicopata ‘pró-social’, que evita o crime e consegue interagir normalmente na sociedade. É importante notar que os termos ‘anti-social’ e ‘pró-social’ não têm qualquer relação com ser ou não sociável. Muito pelo contrário. A sociabilidade, é justamente um dos traços de personalidade mais marcantes dos Psicopatas ‘anti-sociais’.
OS DISTÚRBIOS DE PERSONALIDADE
A mais recente literatura sobre psicopatia a divide em Psicopatia Primária e Secundária, cada qual com etiologia e traços de personalidade distintos. Com relação à personalidade, elas divergem em especial no que diz respeito à sensibilidade à recompensa e à punição, ao equilíbrio emocional, à impulsividade e à hostilidade. Nesse estudo, Yildirim & Derksen mostram ainda que há forte correlação entre a Psicopatia e os distúrbios de personalidade conhecidos como ‘Cluster B’. De fato, segundo a psicanalista Sue Gerhardt, dado os genes ‘corretos’, as personalidades resultantes de maus-tratos nos primeiros 1.000 dias de vida apresentarão provavelmente traços de um desses quatro distúrbios. A causa da Psicopatia Primária estaria fortemente relacionada a déficit emocional do tipo encontrado nos distúrbios de personalidade Narcisista (NPD) e Histriônico (HPD). Já a da Psicopatia Secundária estaria ligada à instabilidade emocional tipicamente encontrada nos distúrbios de personalidade Borderline (BPD) e Anti-Social (ASPD).
HEREDITARIEDADE E COMORBIDADE
Em pesquisa envolvendo mais de 1.300 pares de gêmeos noruegueses estimou-se a taxa de hereditariedade para os distúrbios do Cluster B como sendo: Narcisistas (24%), Histriônicos (31%), Borderlines (35%) e Anti-Sociais (38%). Além disso, o estudo também revelou um alto índice de comorbidade entre eles. Ao final, os pesquisadores concluíram que estas comorbidades podem ser atribuídas tanto a fatores genéticos quanto ambientais. Ainda assim, o alto índice de hereditariedade reforça, de certa forma, a hipótese do fator genético como causa.
OS SISTEMAS NEURO-HORMONAIS
Segundo Yildirim & Derksen, quanto à etiologia, Psicopatas diferem principalmente na contribuição genética, no circuito fronto-límbico, no funcionamento do sistema serotonérgico e dos hormônios testosterona e cortisol. Sue Gerhardt acreditava que, quanto mais cedo o bebê fosse exposto a um ambiente tóxico – seja por envolver abuso, negligência, fumo ou stress – mais severo seria o distúrbio. Isso nos sugere a existência de um espectro. Se fatores ambientais adversos incidirem sobre um menino no útero ou no seu primeiro ano de vida, as chances de ele manifestar traços Anti-Sociais (ASPD) são bem maiores. Se for uma menina a ser exposta a trauma severo no primeiro ano, o distúrbio de personalidade que ela desenvolverá será provavelmente o Borderline (BPD). Nesse estudo concluiu-se também que Anti-Sociais (ASPD) e Borderlines (ASPD) estão mais proximamente relacionados entre si que com os outros dois distúrbios. Uma menina de mais ou menos dois anos submetida a maus-tratos poderia desenvolver traços Histriônicos (HPD), enquanto um menino nessa mesma faixa etária tenderia a se tornar um Narcisista (NPD) quando adulto.
O CIRCUITO DA EMPATIA
O psicólogo Baron-Cohen de Cambridge em seu trabalho sobre ‘cegueira mental’ – incapacidade de entender o estado mental de si-próprio e dos outros, também conhecida como Teoria da Mente (TOM) – estima que há vários níveis de empatia. Segundo ele, em um dos extremos do espectro estariam os Psicopatas, indivíduos com zero grau de empatia, incapazes de perceber o impacto que causam nos outros ou mesmo antecipar seus sentimentos e reações. Entretanto, pesquisas recentes mostram que o Psicopata não é totalmente desprovido de empatia. Em 2013, psicólogos do Social Brain Lab de Amsterdam descobriram que eles são sim capazes de ter este sentimento. A diferença é que eles conseguem, a seu critério, ligá-lo ou desligá-lo. Quando lhes foi solicitado que reconhecessem as emoções de outras pessoas eles foram capazes de ativá-la. Isso sugere um funcionamento anormal, mas não uma total impossibilidade de funcionamento dos circuitos neurais associados à empatia. Isso explica por que é relativamente mais fácil para eles causarem danos às pessoas. E, de certa forma, explica também por que, apesar de aparentemente insensíveis aos sentimentos dos outros, conseguem ainda assim ser sedutores e socialmente astutos. Para entender como esses fatores se traduzem em disfunções a nível físico, vamos analisar no próximo capítulo as áreas do cérebro que estão diretamente envolvidas ou são de alguma forma afetadas por esse distúrbio.